Esse trem tem como destino Jurubatuba


Fazer o mesmo trajeto todos os dias torna-o automático. Por mais que eu tenha tendência a me perder, chega sempre o ponto em que acaba entrando na minha cabeça e se tornando ato comum. Ainda que eu seja frequentadora dos diversos meios de transporte paulistanos (se o rio fosse limpo e eu pudesse ir de barco pra casa, garanto que escolheria o bilhete único ônibus + trilhos + água e olharia pela janela antes de sair). Há algum tempo constatei que em dia de chuva (eu disse chuva, não tempestade apocalíptica), é melhor pegar o trem. Parece estranho, porque vivo em uma cidade em que as linhas de trem estão quase dentro do rio e todos aprendemos que rios transbordam, mas é verdade. Pelo menos não tem trânsito, afinal de contas.

Então quando a chuva começa a cair, eu coloco minhas galochas, abro meu guarda-chuva e sigo minha vida de habitué da linha 9 – Esmeralda da CPTM. Sou frequentadora da estação Pinheiros e multidões que seguem em múltiplos sentidos não me intimidam mais. Como boa paulistana, aprendi que sempre dá pra cortar caminho. Pra quê pegar a escada rolante com fila se tudo que eu preciso fazer é subir uma escada íngreme, com o chão cheio de poças e ainda desviar das pessoas que estão descendo? Daí é só cortar caminho pelo canto do elevador, atravessar a passarela pelo canto direito e evitar a primeira escada para a plataforma. Se puder, evite todas e desça lá no canto, pela última. Isso se o trem não estiver chegando, claro. Aí, amigo, a única possibilidade é correr.

Tem dias em que eu chego na estação e encontro uma plataforma tão lotada que não tem nem lugar pra sentar. Quando nem ouvir música parece possível por causa do barulho. Voltas de feriado com pessoas carregando malas maiores que elas ou um cara inexplicavelmente carregando placas de madeira enormes em pleno horário de pico. Acontece. Preciso fazer uma maratona para conseguir pisar dentro do trem antes que o temido barulhinho de fechamento das portas comece.

Tem dias em que eu só lembro de abrir o aplicativo da CPTM quando já arranjei um banco desconfortável de plástico para ficar esperando. E é aqui que descubro que os trens estão funcionando com velocidade reduzida e sinto que gostaria de ter poderes de magia negra pra amaldiçoar quem deixou que isso acontecesse. É claro que exatamente nesses dias outros habitués da linha aparecem: a tia que quer puxar papo e não compreende a existência de pessoas introvertidas, o pregador religioso com talento pra locutor de rádio, o vendedor de doces entusiasta do Suflair (me recuso terminantemente a pagar por pedaços de ar), o moço que precisa urgentemente de um folder sobre o que faz um prefeito/governador/presidente, a criança que chora (é puro recalque, queria que fosse socialmente aceitável para uma pseudo adulta chorar porque demorou pra chegar em casa), o cara que faz questão de atualizar todos ao redor sobre mudanças meteorológicas e não sacou que é 2015 e todo mundo usa celular e, por falar nisso, a pessoa que fala alto no celular.

Mas também existem dias de vitória. Dias em que a corrida com obstáculos vale a pena, que eu chego na hora certinha e com uma pequena corrida escada abaixo consigo entrar em um vagão não tão cheio assim. Às vezes, se eu tiver sorte de verdade, até encontro um assento vazio, mas me contento com um canto livre na parede pra me encostar. Vai acabar logo, repito como um mantra, porque meu caminho não deve demorar mais que quinze minutos. Eu vejo algumas pessoas entrarem no vagão e darem meia-volta, mas não presto muito atenção. Torço para que o trem continue vazio e aquele senhor com uma maleta pare de me empurrar. As portas fecham e eu ouço as melhores palavras que posso ouvir às seis e meia da tarde: “esse trem tem como destino Jurubatuba”. Isso explica porque estava vazio: nos horários de pico alguns trens da CPTM fazem só parte do caminho. Fico me sentindo egoísta, afinal, aquelas palavras no alto falante só são boas para aqueles de nós que moramos perto dessas estações. A vitória no transporte público paulistano existe, mas é agridoce. 

Isto é, até que o próximo aviso é que devido a uma falha elétrica, os trens estão operando em velocidade reduzida. A queda do ar condicionado no trem lento é ruim mesmo que ele não esteja tão cheio. Ter ficado na estação parece que teria sido uma escolha melhor quando o odor do rio entra no vagão por buracos invisíveis. A próxima plataforma parece que nunca chega.

Talvez amanhã eu pegue o ônibus. O trânsito não pode estar tão ruim assim, vai?

 

Compartilhe:

Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.