Essa gente que escreve


Texto: Ana Luísa

Não lembro direito como começou, mas lembro que tinha por volta de 7 anos e um caderno que eu preenchia com base em temas que as pessoas me davam para “escrever uma história”. Pouco tempo depois, aprendi que o nome daquilo era redação. Foi aparentemente assim que virei uma pessoa que escreve e depois disso, meus caros, foi só ladeira abaixo.

Abria o word ao invés dos joguinhos quando estava no computador; era sempre um dos alunos que se voluntariava para ler a própria redação em voz alta; fiz aula de redação; criei um blog; resolvi que ia fazer jornalismo porque gostava de escrever e de contar histórias. É assim, então? Eu… escrevo?

Mas o que é, afinal de contas, escrever? Colocar uma palavra atrás da outra de forma interessante? Conseguir passar para o papel aquilo que a gente quer dizer? Uma vez uma amiga disse que o escritor é aquele que acha escrever, na verdade, muito difícil. E eu concordo plenamente. Quando a gente se acostuma a ser “uma pessoa que escreve” a carga fica pesada demais e lá vem ela, a síndrome do impostor: “Como assim EU escrevo, gente? To aqui na frente dessa folha em branco há horas e não saiu nada”.

Uma coisa que eu venho reparando na vida é que as pessoas que escrevem são as que fazem isso regularmente e que se preocupam mais com o resultado do que deveriam. As que não escrevem, no entanto, pela leveza de não carregar a alcunha do escritor, simplesmente sentam e fazem a tarefa quando necessário.

Tive um forte indício disso quando minha amiga casou. Ela me pediu um discurso de testemunha e eu fiz. Todo mundo achou que ficou lindo – mas eu sei o que esse “ficou lindo” significa: que o lugar de cada vírgula plantada naquele papel foi calculado milimetricamente, afinal de contas, eu escrevo e sou obrigada a fazer bem feito. Foi então que o noivo, cheio de graça e rebolado, leu seus votos de casamento (os votos de uma pessoa que não escreve) e essa foi, de longe, a parte mais bonita da celebração. O noivo não escrevia, então na hora de fazer os votos ele simplesmente sentou e disse o que lhe vinha na cabeça. Com gracejos sinceros e nenhum cálculo de vírgula aparente.

Entramos mais uma vez em um daqueles casos onde os rótulos só atrapalham ou decidimos de uma vez por todas que ser “gente que escreve” não passa de uma ilusão? Será que, no fim das contas, todo mundo escreve e só alguns decidem se levar a sério demais e acabam meio perdidos? VOCÊ escreve? O que é uma folha em branco para você? Para mim às vezes é uma nova chance de aventura. Às vezes é um tormento. Às vezes é a prova de que eu nunca soube, na verdade, como foi que eu acabei conhecida como alguém que escreve. Você escreve?

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.