Espaço que a gente cria


Texto: Analu Bussular // Arte: Raquel Thomé

Qual é a primeira coisa em que você pensa quando escuta a palavra “espaço”? Pergunto porque essa deve ser uma das palavras da língua portuguesa com mais margens para significados diferentes. Espaço podia ser tanta, mas tanta coisa que por alguns segundos eu me descabelei pensando em qual exatamente deveria ser o meu gancho: espaço físico? Espaço sideral? Espaço de fala? Espaço seguro? Entre-espaços? Espaços que a gente cria? Espaço entre uma palavra e outra? Dar espaço para que alguém fique dentro ou fora da sua vida? Espaços.

Como a redação dessa revista vive em sintonia, eu já devia ter esperado que o editoral falaria exatamente sobre todas essas questões que rodaram a minha cabeça, embora até o momento em que ele veio ao ar eu já tivesse decidido sobre qual dos espaços eu ia falar: sobre os não-físicos; sobre os que a gente aprende a criar – e aviso de antemão para o desavisado leitor que esse texto vai ter uma carga pessoal gigantesca porque não tinha como não ter.

Vou começar enumerando dois fatos sobre mim: 1) sou extremamente apegada 2) tive que aprender desde cedo a lidar com grandes distâncias. Se foi moleza? Claro que não. Se é moleza? Não. Mas dizem que o ser humano, por definição, é um ser que se adapta. Como eu acredito que me adaptei? Aprendendo que a gente consegue criar espaços não físicos e fazer grandes coisas com eles enquanto o contato fisicamente próximo não é assim tão possível.

Quando eu tinha 7 anos, tive que me mudar para longe da minha família e da minha melhor amiga – que eram tudo o que eu conhecia e tinha de mais precioso no mundo. Com 17, quando eu tinha finalmente decidido que a vida onde eu estava vivendo estava realmente interessante e muito boa, tive que me mudar de novo. Aos 19, descobri melhores amigas que moravam uma em cada canto do país. Aos 23, comecei a namorar 1) pela primeira (e única e eterna) vez e 2) à distância, porque eu gosto de desafios eu já tinha tido bagagem para aprender muito bem que quando as pessoas valem a pena a gente aprende a levar mesmo sem ver todo dia.

Praticamente todas as relações mais importantes da minha vida eu descobri desde nova que tinha que aprender a manter à distância, e fico orgulhosa ao parar para pensar que a Analu de 8 aninhos meio que sabia fazer isso mesmo sem saber que sabia. Meu espaço com minha amiga de infância era todo domingo no telefone. Um pouco mais tarde, o espaço para fofocar com as primas passou a ser o MSN – de vez em quando até com webcam! Com as amigas que vieram depois a gente se vira com Skypes, noites de karaokê pelo chat do Facebook e até, vejam vocês, churrasquinhos na laje sem churrasquinho e sem laje. Com meu namorado, os espaços são rituaizinhos como assistir seriado juntos ou ser o despertador um do outro.

Com tudo isso eu acho que só ganhei na vida construindo esse aprendizado de que sim, a gente não precisa estar todos os dias do lado de todo mundo que a gente gosta para acreditar numa relação. Quando a gente se dispõe a ser criativo e cultivar de outras maneiras a proximidade com quem é tão importante mas não vive tão perto assim descobre que, realmente, longe é um lugar que não existe.

No fim das contas, depois de todas aquelas questões iniciais, acho que a definição mais bonita de espaço é: aquele lugar que a gente pode criar para ficar pertinho mesmo quando parece não estar.

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.

  • Que maravilha de texto! Tenho uma amiga de cinco anos que nunca vi pessoalmente e nosso espaço foi evoluindo com o passar dos anos, e apesar da distância eu não sinto uma urgência de conhece-la pois é como se ela sempre estivesse aqui.