Escolha ficar


Texto: Marina Matos // Arte: Isadora M.

O ano era 2015 e eu estava insatisfeita. Basicamente, no meu ponto de vista, estava tudo errado. Eu queria ter outra vida. Morar em outra cidade, ter outra casa, um quintal, uma bicicleta, amigas que também fossem mães e que viessem na minha casa de vez em quando pra comer bolo e deixar as crianças brincarem juntas no quintal de terra e grama. Eu queria que a minha filha brincasse na rua. Eu queria trabalhar escrevendo num café perto de casa. Queria viajar mais. Eu queria morar perto do mar. Ter uma horta, só comer orgânico. Acordar cedo espontaneamente, fazer yoga, meditar, fazer tranquilamente as coisas da casa, sair sozinha, sair com o boy. Tudo na mais perfeita ordem e fluidez que uma vida diferente me daria.

Na verdade, o que eu queria era outra coisa.

Um ano depois, quando as coisas estavam um pouco mais tranquilas dentro da minha cabeça, certa tarde minha prima me perguntou “mas por que você quer mudar de cidade, Má?”, e eu respondi de um jeito mais direto do que esperava:

– Pra fugir.

Foi como se eu ouvisse as peças de uma engrenagem se movendo dentro da minha cabeça.

Claro que eu achava que seria bom ter uma vida tranquila na praia. Mas o que realmente me fazia pensar nisso com muito afinco e vontade não eram os benefícios ou a vista pro mar; era uma crença estranha de que, ao me mudar de cidade, magicamente uma nova Marina seria desembalada junto com as caixas de mudança. Uma Marina calma, tranquila, sem ansiedade. Uma Marina que seria livre, feliz, zen, plena e com mais dinheiro na conta. Como se os meus fantasmas, os meus medos, os meus bloqueios morassem em São Paulo, mais precisamente dentro do apartamento alugado que eu morava e, me mudando sem olhar pra trás, eu estivesse sendo bem esperta e resolvendo tudo de uma só vez, abrindo espaço para uma nova eu florescer e existir.

Eu nem sei dizer de quantas maneiras diferentes isso foi uma cilada. Durante todo o tempo em que alimentei essa ilusão, meus monstrinhos estiveram instalados bem no meio da minha sala de estar, com os pés em cima da mesa e o controle da tevê em mãos. Eu nem estava olhando pra eles, apesar de notar sua presença vez ou outra, de tão espaçosos que eram. Mas olhar, olhar mesmo, eu não olhava. Estava ocupada demais construindo uma cena perfeita, de uma vida perfeita, de uma pessoa perfeita.

Sem nem sair de casa, eu já estava fugindo.

Não lidar com o que sentimos, ou com o que queremos de verdade, nunca é uma boa ideia. A gente pode fingir que não vê, pode construir muros ao redor, pode criar tantas distrações quanto a nossa imaginação for capaz de inventar. Pode passar um ano, dez anos, trinta e sete anos. Não só o sentimento ainda estará presente, esperando para ser visto, como ele pode crescer e se transformar em sintomas ou claras indicações em luz neon de que “veja, tem algo aqui, olha, olha, olha, eu não morri”. Imagino a cena quase como um filme de terror. A pessoa encontra algo tão assustador que sai correndo pulando a janela, esbarrando em tudo que encontra pela frente, vez ou outra olhando pra trás pra ver se ganhou distância, entra num trem, desce antes da estação, pega uma carona, corre mais um pouco, rouba uma bicicleta, consegue entrar num avião, corre mais, entra num quarto de uma casa que nem sabemos de onde surgiu, fecha a porta, senta no chão, respira aliviado. E a coisa assustadora estará lá tranquila olhando pra cara do cidadão, com um ar sarcástico e a roupa perfeitamente alinhada.

Ou talvez eu nem saiba como são os filmes de terror, porque não assisto mesmo. Mas, pra mim, isso é o horror, amigas. O horror.

Tentar fugir do que está dentro de nós, seja um sentimento, um sonho, uma vontade, é completamente doido e improdutivo. Além de demandar uma energia bem grande em manter isso longe do nosso campo de visão, gasta também a energia e o espaço de deixar isso em nós. Acaba virando um peso.

A verdade é que tudo aquilo que resistimos continua existindo. Porque não tem fuga que dê conta de nos distanciar do que está dentro.

Então, se eu puder te pedir uma só coisa para hoje, eu te peço pra ficar.

Se você olhar nos olhos daquele sentimento que agora te parece feio e inadequado, ele vai ficar do tamanho exato que é, não mais um monstrengo disforme, e aos poucos até diminui de tamanho também. Acolha, dê nome, delimite um espaço seguro onde ele pode transitar. É mais fácil lidar com aquilo que a gente sabe o nome.

E se você olhar bem fundo nos olhos daquele seu sonho que hoje parece tão distante e irreal vai dar pra perceber que só esse contato visual já foi o primeiro passo. Você vai validar a existência desse desejo e abrirá um caminho para chegar nele. Assumir isso pra você mesma e pro mundo já muda a perspectiva e te coloca em movimento, ou seja, já traz o sonho pro real, porque todo pequeno primeiro passo já é o princípio da viagem, não é mesmo?

De todo jeito, seja para lidar com o que incomoda ou para realizar algo muito bom, precisamos ficar. Não estou dizendo que seja fácil ou sempre gostosinho. Ficar pede coragem, mão na massa. Eu sei que algumas vezes cansa. Com certeza terão uns momentos em que tudo que vamos querer é sentar na beira da estrada e tomar um picolé. Ou ver série o dia todo, sair pra dançar mais vezes na semana, ficar cinco horas na internet vendo memes. Tudo bem. Não é pra desesperar achando que qualquer pausa configura fuga. Que venham os picolés, as maratonas de série, as baladas, os memes e o que mais fizer sentido para cada um. Não é pra ser uma corrida desenfreada essa coisa de viver bem, afinal. Já não é mais fuga quando sabemos e assumimos todas as partes que compõem quem a gente é.

Fiquemos em paz em estarmos dentro da gente.
Fiquemos orgulhosas de sermos exatamente essa pessoa que somos.
Fiquemos, enfim. Onde a mágica acontece, onde a gente vive. Dentro.
Pode ser revolucionário, se eu fosse você ficava aqui pra saber.

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