Era tudo um truque


Texto: Clara Browne

Eu aprendi cedo a tirar o meu próprio dedo e depois colocá-lo no lugar. Era fácil deslizar a metade do meu dedo indicador pela lateral do meu dedo do meio e depois encaixar tudo de volta. Um truque clássico que meu pai me ensinou quando eu ainda era pequena e que me fazia muito popular entre crianças mais novas que eu.

Não lembro por quanto tempo acreditei que meu pai conseguia tirar o dedo de fato – talvez poucos minutos, talvez por meses a fio –, mas lembro da sensação dos meus olhos brilhando de surpresa. Lembro de, um dia, meu pai me contar em tom de segredo como ele era tirava o dedo: era tudo um truque. Bastava dobrar o dedão assim, posicionar com jeito, cobrir com outro dedo e… pronto, lá estava eu também tirando meu próprio dedo, fazendo sucesso, sendo uma verdadeira ilusionista.

Antes disso, eu já sabia alguns outros truques. Sabia tirar o nariz dos outros sem precisar de cirurgia, sabia como trocar o anel de dedo apenas batendo consecutivamente com a mão na mesa, sabia tirar moedas das orelhas das pessoas. Eram coisas simples que davam certo status de magia ou pelo menos esperteza para mim e para quem mais sabia.

Eu não sei exatamente quando entendemos que toda mágica é um truque. Mas depois de algum tempo, quando você tira o nariz da outra pessoa, ela só te responde “ha. ha. ha. ” e não pede o nariz de volta, porque sabe que ele continua no seu rosto. Ainda lembro de estar no colégio e fazer a mágica do dedo, e uma colega minha dizer “dãã, isso é muito fácil”, mostrando que era tudo um truque barato.

É triste ver suas mágicas virarem truques, ser desmascarado com tanta facilidade, ter sua integridade de praticante de magia questionada quando alguém te pergunta o truque ou mesmo olha pra você com desdém e diz “dãã, até parece” (o “dãã” é a parte mais dolorosa em qualquer discurso – nunca o usem). É como se tudo aquilo que acreditamos ser possível não passasse de mera… falsidade. De repente, a magia do segredo, de saber, de ter o dom de encantar se esvai e você se torna um farsante amador, um fajuto.

Mas então um estranho fenômeno acontece e voltamos a acreditar não em mágicas, mas em magias. Se aos sete deixamos de acreditar em todas as mágicas que nos mostravam, aos treze voltamos a torcer para que cada processo que vivemos seja um pouquinho extraordinário, por assim dizer. Voltamos a ler – ou pelo menos voltamos a nos orgulhar de ler – livros de fantasia, cheios de bruxos, duendes e fadas. Entendemos que sim, os contos de fadas que nos contavam quando pequenos eram mentira, mas esses mundos não são como os da nossa infância. Não é apenas tirar o dedo o que os personagens de nossa adolescência fazem. Suas vidas têm magia e complexidade e não são boas, não são histórias que necessariamente gostaríamos de viver, mas definitivamente são lugares tão fantásticos que preferimos acreditar serem reais.

Agora, sabemos que é um truque. Mas isso para nós não importa mais. Entendemos que a magia está no processo, nas minúcias, em saber que escondendo a moeda de tal maneira nas mangas fica ainda mais difícil da pessoa entender como você tirou aquele pequeno disco dourado de trás de sua orelha. Entendemos que existe sim magia e ela é o processo do fazer acontecer, ela é a forma, a análise. E como mesmo sabendo de tudo isso, ainda nos surpreendemos com o resultado final.

Para tirar o nariz de alguém, bastar pegar o nariz da pessoa com a mão e, ao puxar, esconder seu dedão entre os dedos indicador e do meio. Esconda a unha do dedão. Seu amigo vai dizer:

– Ha. Ha. Ha.

Mas ele vai sentir falta do nariz, mesmo sabendo que está preso como sempre no rosto. E você, sentindo parte do nariz na sua mão, mesmo que seja apenas seu próprio dedo, vai devolvê-lo a seu amigo. Ou então, você faz uso ruim da magia que possui.

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