“Entre o mundo e eu”, Ta-Nehisi Coates


Texto: Lorena Pimentel

Durante essa semana, vi vários ~textões no face~ sobre a Beyoncé e o clipe de Formation. Minha única opinião a respeito era de que ele era ótimo como clipe, mas também que Queen Bey arrasou ao utilizar a plataforma enorme que ela tem pra conversar sobre racismo nos EUA. Bem importante em um contexto sociocultural que não só vê assassinatos e jovens negros toda hora, como ignora. Pois é.

Porque falar de temas pesados assim geralmente causa controvérsias, não demorou até pessoas racistas darem as caras e tudo acabar com um esquete do SNL: “O dia que Beyoncé virou negra”. A crítica, claro, quer mostrar como as pessoas amam a Beyoncé até que ela faça um clipe que mostre, sem desculpas, sua identidade e o que os negros sofrem. Sabe aquela pessoa que diz “não sou racista, tenho amigos negros” mas faz cara de nojinho pra black power? Pois é.

Coincidentemente, durante essa semana também estive lendo “Entre o mundo e eu”, do jornalista americano Ta-Nehisi Coates. Na forma de uma carta ao seu filho de quinze anos, ele questiona o lugar do negro na sociedade e explica como foi sua vida como um jovem marginalizado em uma sociedade racista.

Misturando questões históricas com sua própria experiência nos bairros de Baltimore, o mais interessante é a forma com que ele atinge o problema. E inegável que seu filho vive em uma realidade diferente, mas ainda assim o autor frisa suas interações com o racismo no dia-a-dia. O pai fala sobre o medo da polícia em sua infância, o filhos e revolta com o assassinato de jovens negros não armados por parte da polícia. Fica aqui um link do BuzzFeed (que para em 2015, mas vocês entendem) sobre essa questão.

É cômodo pra quem não sofre um tipo de opressão sistêmica fingir que ela não existe. Olha, eu sou uma pessoa branca e sei disso. É muito mais difícil pra mim notar que a universidade em que eu estou é quase completamente branca. Que trabalhei com bem mais brancos que negros. Quando não te afeta, você entra mais facilmente na ilusão. A ilusão de que o racismo acabou porque isso ou aquilo. Mas a gente vê, seja por jovens assassinados seja por falta de indicações de profissionais negros ao Oscar, que não é bem assim.

Que é, na verdade, o que Coates tenta alcançar na carta ao seu filho. Eles estão vivendo em tempos diferentes e talvez as tensões raciais tenham mudado, mas elas não desapareceram. Com essa carta, o autor reconhece que ainda é muito difícil ser negro e como as marcas históricas da segregação racial ainda estão pro aí, em facetas diferentes. E por isso os negros ainda estão lutando contra discriminação em todas as partes de suas vidas. Ainda existe essa barreira social.

A edição brasileira é aberta pelo prefácio de Antonio Sergio Alfredo Guimarães, escritor e professor de Sociologia da USP. Ele nos incita a ler pensando na vida dos jovens de Baltimore, mas também olhar para mais perto: “O leitor brasileiro deve ler Ta-Nehisi pensando nos massacres do Carandiru, de Candelária, de Osasco, de Carapicuíba, de Guarulhos, da Rocinha”.

Além de recontar as tragédias, o escritor também ecoa Coates na esperança para um avanço social. O americano (e a Beyoncé) chamam a atenção para o Black Lives Matter, movimento negro em oposição aos massacres policias. O autor no Brasil fala da importância de valorizarmos a ideologia negra e abrirmos espaços para o estudo dela em nossas escolas. “Entre o mundo e eu” pode soar regional a princípio, mas as experiências ali são universais. O racismo está por aí. E como diz o professor, ao final do prefácio: “o leitor aprenderá com Ta-Nehisi muito da sociedade americana para refletir mais sobre si mesmo”.

Obs: Para fazer esse texto, conversei com a Rafaela Rodrigues. Além de ser uma ótima pessoa que constantemente me ensina mais sobre vivências, ainda faz resenhas literárias no La Oliphant.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.