Entre arte e loucura – ‘Parafusos’, Ellen Forney


Há alguns assuntos que devem ser evitados e algumas vozes que devem ser mantidas em silêncio. Ano passado, eu comecei um projeto de ler mais livros escritos por mulheres. É uma questão simples: ressignificar a história, ouvir quem sempre lutou para ter pelo menos um pouco de espaço. A experiência, no entanto, teve um impacto enorme em minha vida. A representatividade importa por muitos motivos: É revigorante perceber o quanto as mulheres podem ser muitas coisas, isso me dá coragem; mas, talvez, seja ainda mais importante poder se enxergar em outros e entender que a solidão é efeito do silêncio. Livros tem o poder de conquistar territórios novos e torná-los públicos. Uma mulher quando fala de questões individuais pode criar um novo espaço compartilhado. Por meio de uma dessas vozes femininas, revisitei meu passado e o guiei por outra trajetória, uma em que posso me dizer inteira.

“Parafusos” é um quadrinho escrito por Ellen Forney que discute, através de sua experiência pessoal, a relação entre criatividade e limites psíquicos. Sua história começa quando Ellen, perto de completar 30 anos, recebe o diagnóstico de bipolar. Inicialmente, o diagnóstico tem o peso de um rótulo que logo se confunde com destino: Ellen começa a se enxergar através do estigma da artista louca, subitamente, torna-se parte do que chama de Clube Van Gogh, um grupo formado por integrantes como Sylvia Plath, Michelangelo, Edvard Munch, Leon Tolstoy, Virgia Woolf, entre outros. Movida por uma visão idealizada e uma série de estereótipos, ela acredita que o preço a se pagar por seu trabalho criativo é uma vida de instabilidade e desgaste emocional. É por estar disposta a aceitar esse valor que ela recusa o tratamento à base de medicamentos que sua psiquiatra propõe.

Essa primeira reação ao diagnóstico também é consequência de Ellen se encontrar, durante esse período, em uma fase maníaca – ou seja, para cima, agitada, criativa e incessante. Ainda que estivesse muito assustada, ela também se sentia confiante o suficiente pra criar sua própria cura. Foi assim que bolou um plano para se manter em equilíbrio: enquanto estivesse para cima iria preparar diversos projetos para finalizar quando estivesse se sentindo deprimida e sem ideias, desse modo, continuaria sempre produtiva e minimamente estável. No entanto, quando cai do alto da mania para o vazio melancólico, ela percebe que sua memória do quadro depressivo era mais suave do que a realidade deste transtorno. Durante a depressão, o plano de se manter produtiva e equilibrada se mostra bem mais difícil do que parecia; ela se sente imobilizada, frágil e sem propósitos para seguir com seus dias, não consegue trabalhar ou manter uma vida social. Os traços dos quadrinhos acompanham essa queda e, se antes eram cheios de informações, quando narram a fase depressiva são pesados e simples.

Nesse período, Ellen aceita começar a tomar Lítio, porém, como esse remédio é um estabilizador de humor, ele não é suficiente para que ela saia da depressão. Então, seu tratamento consiste em uma combinação de diferentes atividades: desde o acompanhamento semanal com sua psiquiatra até a prática de exercícios físicos, como ioga. Uma das recomendações de sua psiquiatra é que ela investisse em atividades introspectiva, então, ela se dedica à leitura e começa a investigar, através de biografias e estudos, a vida dos integrantes do Clube Van Gogh.  Ao ler sobre essas diferentes histórias, ela tenta desvendar qual foi o papel que a loucura ocupou em suas existências e até que ponto a instabilidade era produtiva e quanto se tornava um fardo. E também se autoquestiona: afinal, sua vida só pode ser digna se ela continuar produzindo arte? E para ser uma artista ela deve necessariamente ter uma vida intensa e instável? O que há de errado em escolher cuidar de si mesma em vez de apostar em uma rotina autodestrutiva? Gente que preza pelo bem estar e o equilíbrio é sempre chata e acomodada? A dor pode ser inspiradora? Até que chega a pelo menos uma conclusão sobre seus sentimentos:

“esse é o meu medo de tomar medicamentos – perder a inspiração. Mas não quero manter meus sofrimentos. Não quero fazer arte sobre os meus sofrimentos. Meus sofrimentos são uma droga! Será que é ruim? Sou superficial? Fraca? Às vezes, parece que a “dor” é uma fonte de inspiração muito óbvia. De qualquer modo, a dor nem sempre é profunda. Às vezes é horrível e só. Ou tediosa. Sem dúvida há outras coisas que podem ser tão profundas quanto a dor…?”

Ellen não encontra uma resposta exata para suas indagações, mas descobre possibilidades. Existem respostas diversas, pois, afinal, a vida é plural e cada um lida de um modo próprio com seus limites psíquicos. Ela começa a compreender que não há nada que garanta uma associação essencial entre loucura e criatividade, porque, na verdade, essa é uma combinação de duas coisas distintas que certamente podem se influenciarem, mas que não se dão em uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, a criatividade independente da instabilidade psíquica e vice versa. De fato, a depressão e a mania podem influenciar alguns trabalhos artísticos, assim como o estilo de vida instável característicos dos artistas pode intensificar esses transtornos.

Assim como um Teto todo seu desmitifica a relação entre as mulheres e a literatura, ao afirmar que as únicas coisas necessárias para que uma mulher se torne uma escritora é um teto e uma renda próprios; Parafusos rompe com a romântica associação entre loucura e criatividade, ao atentar para a materialidade das vidas que são afetadas por transtorno psíquicos.  Ao fim do quadrinho, depois de anos de tratamento, diferentes tentativas com remédios e técnicas, Ellen se encontra “curada” e demonstra o que isso significa em termos ter econômicos. Infelizmente, ela só pode conquistar uma estabilidade que a permite ser uma bipolar funcional, após dedicar muito dinheiro e tempo ao seu tratamento.

Ao fazer isso, ela expõe que a saúde psíquica não é uma questão puramente subjetiva, não é algo que depende apenas de um esforço pessoal e muito menos a marca de uma identidade que pode ser considerada como um dom ou predestinação. A verdade é que muitas pessoas não se curam, porque não tem condições – financeiras, familiares, existenciais… – para garantirem um tratamento apropriado e, ainda mais, para se bancarem durante os períodos de crise em que não conseguem trabalhar. Quando pensamos a relação entre arte e loucura a partir desse viés, compreendemos o quanto a idealização dos transtornos psíquicos é algo nocivo e cruel.

A dor, quando sentida na pele, não é algo passível de romantização, ela não é bonita ou interessante, é um tormento. A jornada de Ellen me lembrou de minha própria experiência, das fases mais difíceis e de todo o trajeto que foi necessário para eu ser uma pessoa com mais autoconhecimento e estabilidade – principalmente alguém que aceita a ideia de cuidar de si mesma e ser mais feliz.  Por muito tempo não me enxerguei como uma pessoa feita de necessidades e limites, porque apostei em uma narrativa, na qual a dor fazia parte do pacote que era minha identidade intensa e artística. Meu lema era sentir tudo e me poupar de nada. Até que admiti, quase em segredo, como Hanah Horvath no quinto episódio da segunda temporada de Girls, que eu queria, sim, essa banalidade: ser simplesmente feliz. Parafusos me ajudou a aceitar que às vezes preciso de ajuda e de um pouco mais de gentileza comigo mesma. É um livro essencial para quem já passou ou está passando por transtornos psíquicos, porque nos lembra que, ainda que essa experiência seja muito difícil e solitária, nós não precisamos nos isolar em silêncio.

por Taís Bravo:Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros. Nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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