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Texto: Analu Bussular // Arte: Raquel Thomé

Há uns tempos, uma amiga, com uma palavrinha simples, me ensinou muita coisa. Ela nem deve se lembrar do acontecimento, mas eu nunca esqueci. Estávamos fazendo folia, éramos muitas para nos maquiarmos, tinha a colação de grau de uma de nós a nossa espera. E então eu perguntei se ela poderia maquiar o meu olho. Ela me olhou, tranquila, e disse: não, miga.

Ela não queria maquiar meu olho, estava com preguiça, deve ser chato. Mas eu fiquei surpresa com a calma e a tranquilidade com a qual ela me disse aquele não. Eu concordei, sem problema nenhum, me virei para maquiar meu olho e não guardei mágoa nenhuma – só a tentativa de praticar o que ela estava me ensinando.

Sempre achei muito difícil falar não. Aceitava convites que não queria, emprestava lição de casa pra gente que não gostava de mim, uma vez deixei o cabeleireiro cortar minha franja enquanto eu lutava para que ela crescesse só porque não tive coragem de dizer a palavrinha mágica quando ele dirigiu a tesoura à minha testa.

Essa história do não é polêmica. Li ano passado o livro “O ano em que eu disse SIM”, da Shonda Rhimes. Nele, ela relata que percebeu um dia na sua vida que só falava não, e que quando se propôs a dizer sim, viveu experiências incríveis. Aproveitou para deixar claro, em um capítulo, que aprender a dizer sim ao não é igualmente importante. Realmente é.

Quantas vezes a gente passa por cima da gente dizendo sim quando não queria? Quantas vezes a gente não se mete em cilada por causa disso, quantas vezes a gente não se pega atolada de trabalho porque não conseguiu negar mais um? Dizer sim para a vida é importante e a gente ganha muito com isso, mas até o próprio sim tem mais valor quando a gente sente que poderia ter dito não se quisesse.

A certeza da minha amiga em dizer aquele não sem imaginar nem por um minuto que eu ficaria chateada ou deixaria de gostar dela (?) por causa daquilo mexeu demais comigo. Eu acho que guardo uma insegurança muito grande de não ser aceita. Tenho medo de falar não e as pessoas nunca mais gostarem de mim – mas sigo na tentativa. Um dia alcanço a meta de continuar plena e seguindo a vida depois de falar essa palavrinha.

 

Esse post é parte da proposta da edição 31, ou seja, foi escrito depois da arte ter sido feita e com inspiração nela. 

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.