Encontrando minha identidade nos outros: sobre fanfics


Uma dessas coisas que todo mundo sabe sobre mim: sou fangirl inveterada, posso ficar horas falando ou escrevendo ou ouvindo ou lendo sobre livros, séries, filmes, músicas, pessoas favoritas. Fiz aniversário outro dia e metade dos parabéns tinha referências a Gossip Girl, Pretty Little Liars, Channing Tatum ou Taylor Swift (obsessões atuais), de tanto que isso me define. Então, sabe, não é de surpreender ninguém que eu cresci lendo e escrevendo fanfic (e eu tão não faço segredo disso que é assunto de um texto meu no livro da Capitolina – pois é, tô falando de fanfic em livro publicado).

Para quem não sabe, fanfic nada mais é do que uma história escrita por fãs de determinado texto fonte – e eu digo texto no sentido mais amplo possível, não só englobando filmes e livros e quadrinhos e obras de arte das mais variadas, mas também as vidas públicas de celebridades (que são narrativas midiáticas em si). Pode ser um jeito de mudar o final que você detestou, de fazer dois (ou mais) personagens se pegarem, de se enfiar na história, de mudar o ponto de vista da narrativa porque o protagonista é muito chato, de consertar o que você acha que o autor original fez de errado, de fazer um crossover entre duas histórias que você ama de paixão, de só mudar tudo mesmo e transformar o seu livro de romance favorito num thriller passado no velho oeste porque é divertido à beça.

Além de ser muito legal, escrever fanfic é um tremendo exercício literário, e foi uma das minhas principais formações como escritora (junto com mais blogs do que sou capaz de contar, e uns anos em fórum de RPG de Harry Potter). Não só pela prática – afinal, só se aprende a escrever bem escrevendo muito –, mas porque o mundo das fanfics te permite aprender a importância de cada etapa e cada detalhe da narrativa.

É engraçada a liberdade que escrever em cima dos conceitos de outra pessoa pode te dar! Afinal, se você não tem que se preocupar com a criação básica dos personagens ou do ambiente, você pode se preocupar com outras coisas: descrições, desenvolvimento emocional, enredo, caracterização… Se você opta por mudar algum elemento da história – o narrador, por exemplo, ou o contexto em que se passa –, você precisa aprender a manter certas coisas intactas para que o texto ainda faça sentido como fanfic; você precisa entender como aqueles personagens seriam num mundo pós-apocalíptico, por exemplo, ou como eles seriam vistos pelo seu novo narrador, sem que o que você escreva seja inteiramente ooc (out of character, ou seja, quando seu personagem não parece ele próprio, e aquilo não parece crível para o leitor).

Outro elemento fundamental do aprendizado com fanfics é o aspecto social da coisa: você posta no Tumblr, no Livejournal, no AO3, no Fanfic.net, no Wattpad, onde quer que seja, para o resto do fandom ler. Você recebe feedback. Você lê outras fics e dá feedback nelas. Você acaba se envolvendo numa rede de pessoas com interesses semelhantes, que também amam ler e escrever e querem aprender a escrever cada vez melhor – feedback te ajuda a entender o que você faz bem, o que você poderia fazer melhor, e o que só não funciona para você mesmo.

Escrevendo fanfics, eu me encontrei como escritora. Eu entendi para que levo jeito na ficção (no caso, descrever cenas pequenas e mundanas, detalhar emoções em pequenos gestos, criar imagens que parecem desses filmes franceses em que nada acontece direito), para que não levo jeito (ainda) (no caso, cenas de muita ação e movimento, descrições muito detalhadas do ambiente físico, humor), e, mais importante, o que gosto de escrever (muito drama, felicidade misturada com uma certa melancolia, histórias levemente creepy e perturbadoras, manipulação e crueldade). Minha identidade na ficção (que, na verdade, hoje em dia escrevo pouco, mas tenho tentado retomar) foi determinada nos anos em que escrevi sobre personagens e contextos alheios. Existe um ditado/citação cuja origem eu desconheço (o Google só me dá respostas confusas) que diz que chegamos onde chegamos nos sustentando nos ombros daqueles que vieram antes de nós – na minha vida literária, as fanfics são a prova concreta disso.

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Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.