“Enclausurado”, Ian McEwan


“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda.”

É assim que Ian McEwan inicia seu romance mais recente, Enclausurado (tradução de Jorio Dauster), narrado por um feto. E não um feto qualquer, mas um envolvido em um crime. Sua mãe, junto com o amante, pretende matar o marido, pai do bebê, para herdar um imóvel valioso. O amante, Claude, é irmão do alvo do crime, e se essa história parece familiar para você é porque ela já foi escrita antes, de outra forma, por Shakespeare. McEwan não esconde sua inspiração, desde os nomes dos personagens – Claude e Trudy são as versões modernas de Claudius e Gertrude – até referências a certos solilóquios bem conhecidos.

Mas é claro que Hamlet não é um feto em sua versão original, e o fato do protagonista do romance de McEwan sê-lo é o grande destaque. Há uma tentativa de coerência na narração do feto – ele justifica o seu vasto conhecimento do mundo por tudo o que ouve, desde as conversas da mãe até os podcasts que ela escuta quando está insone, mas é claro que é preciso suspender completamente a descrença para poder entrar na história. Afinal, estamos falando de um feto que pensa, tem um vocabulário pomposo e com opiniões que parecem com as de um homem de meia-idade. Trata-se de um narrador que aprecia filosofia, faz longas digressões sobre o mundo contemporâneo e degusta os vinhos que a mãe bebe com avidez, imaginando identificar os sabores e até as safras.

O feto não tem quase nenhum poder de ação – ele chuta sua mãe para ela relembrar da sua existência, mas pode fazer pouco mais que isso. No entanto, ele é capaz de ouvir e contar, e é o que faz de melhor, supondo aquilo que não vê e assim cobrindo as lacunas que faltam para criar uma narrativa mais detalhada. Aos poucos, o suspense vai aumentando e o romance se aproxima cada vez mais de uma história policial, deixando o leitor mais curioso para chegar no fim, que mesmo não sendo impossível de adivinhar não deixa de ser engenhoso e o único final possível para essa história.

Como fã de narradores improváveis, do defunto autor de Machado de Assis ao felino de Eu sou um gato, não fiquei surpresa com o quanto gostei de Enclausurado. É um romance absurdo, engraçado e bem escrito, e se é verdade que ainda não conheço o suficiente da obra de McEwan para poder comparar, também é verdade que irei atrás dos seus outros livros, com a esperança de que me agradem tanto quanto esse me agradou.

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Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.