Empatia nossa de cada dia


Texto: Larissa Siriani

Num dos meus novos trabalhos, escrevo sobre uma personagem que sofre de anorexia nervosa. Tendo eu mesma sofrido um distúrbio alimentar, entrar na mente da personagem foi razoavelmente fácil; talvez exatamente por isso, tenha sido uma das experiências mais terrivelmente dolorosas de escrita que já experimentei na vida.

A coisa mais importante em qualquer livro são os personagens. É através deles que vivemos a história, é com eles que nos identificamos e criamos laços emocionais, e eles são, portanto, o alicerce de qualquer boa leitura. Você pode ter uma história falha, mas bons personagens são capazes de salvar qualquer plot. E para ter bons personagens, eles precisam ser reais. Não basta que eles narrem um conflito – para que você sinta, eles precisam sentir. Toda a emoção passa por eles primeiro. E para fazer isso, essa emoção precisa primeiro passar por nós, autores.

Ser escritor é um exercício diário de empatia, pois para aprofundar seu personagem, você precisa se colocar no lugar dele. Posso nunca viver o que ele viveu, mas devo fazer meu máximo para entender quem ele é. Preciso aprender a pensar e a sentir como uma anoréxica, como um homossexual, um deficiente físico, uma mãe solteira. Para cada livro, visto várias carapuças diferentes, na esperança de que, através de muita pesquisa e empatia, você, leitor, possa sentir e compreender este personagem também.

E é nesse olhar do outro que eu às vezes me perco. Meus personagens, suas experiências de vida, seus pensamentos e atitudes me assombram. Em casos mais pessoais, como o deste último trabalho, às vezes é difícil determinar onde eu termino e começa a personagem. Às vezes, de tanto viver na cabeça deles, me pego experimentando o dia através dos seus olhos, sem saber mais como me libertar do fantasma daquela nova personalidade. É assustadora, às vezes, a intensidade como o ser outra pessoa, mesmo que somente no papel, pode me atingir.

Mas é aí que sei que fiz a coisa certa. É quando respiro e me desprendo, e consigo por fim ver com aquele olhar de fora que percebo que não há outra maneira de tornar uma história tão real. Eu preciso dessa intensidade para que eles também a tenham. É vivendo mil vidas que consigo levá-las ao leitor.

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