Embaralhados


Vou começar este texto falando sobre Einstein. Como assim? O que ele descobriu científica e “objetivamente” sobre o tempo é um dos pontos-chave para a leitura de cartas: a relatividade do tempo, como ele é um conjunto de percepções que não obrigatoriamente segue o enquadramento de dias, semanas, meses e anos que foi dado a ele. E, claro, isto também está em The Raven Cycle, uma das minhas sagas preferidas, em forma de citações e demonstrações de como as videntes da Rua Fox, 300, enxergam suas vidas:

“UM ENTENDIMENTO GERAL DE QUE O TEMPO, COMO UMA HISTÓRIA, NÃO ERA UMA LINHA, MAS UM OCEANO.”

Antes de Einstein, o tempo era visto como uma linearidade de “evoluções” e “amadurecimentos”, em decorrência do pensamento iluminista da modernidade que via o mundo por este viés; daí veio o austríaco, teorizando (apoiado em conhecimentos de outros grandes cientistas, dentre eles, Nicola Tesla) que isto nada mais é do que uma das muitas formas de entender o fenômeno, maneira esta europeia ocidental, imposta ao restante do mundo.

Guiados pela lógica cartesiana, metódica e racional, com pretensões de ser absoluta, quase todo o conhecimento e modo de construí-lo (epistemologia) foi pensado sobre desta premissa, inclusive o tempo, que com o advento da Modernidade (séculos XV e XVI) passou a ser medido e encarado por meio de medidas e constantes. Muito antes de Einstein tratar como científica a relatividade do tempo como resposta a esta tentativa de uniformização do tempo como grandeza físico-matemática, já havia em outras culturas como a grega, com sua serpente Ouroboros e a Sankofa (“volte e traga”) do povo de Akan (Axante), da África Central, com a visão temporal de um círculo de meandros e que contém suas respostas em si mesmo.

Sankofa Axante (Asanti), comum também a alguns povos de Gana

Mas e o tarô nisso? O tema é suspense, quero deixar todo mundo curioso, haha.  As cartas contam uma história. Só que esta história não é linear (desafia a lógica temporal que aprendemos desde pequenos) e depende da percepção de cada um, casando com que Einstein diz sobre o tempo não ser uma constante, como antes se pensava. Não há início, meio e fim claros, embora haja um tipo de leitura, entre muitas, que encadeia passado, presente e futuro (mas na qual nunca se sabe sua posição como sujeito). Um exemplo, para ser mais clara: algumas vezes já joguei cartas nesse sentido de passado, presente e futuro e estava, como sujeito, na posição de futuro clara, mas precisei olhar para o passado, a primeira carta, para obter respostas sobre como prosseguir, porque embora já tivesse vivido, o passado não era visto, até então, por mim, nesta perspectiva. Mais Maggie Stiefvater falando sobre:

“O TARÔ É UMA COISA MUITO PESSOAL, E, COMO TAL, A ARTE EM CADA BARALHO REFLETIA A MULHER QUE A DETINHA.”

arcanos maiores do tarô de TRC

Costumo fazer leituras só com arcanos maiores, por questões de simplicidade: os arcanos representam muito do inconsciente coletivo de Jung, o que facilita filtrar expectativas e respostas que podem ficar mais complicados com a inserção de arcanos menores e naipes, usados por mim para fazer leituras complementares; cada leitora tem um método, e este é o que melhor se mostra para mim: as pessoas para quem leio, geralmente do meu convívio próximo, costumam se agitar muito com o que as cartas proferem, assim, uso os arcanos e naipes para tranquilizá-las.

“NORMALMENTE, UMA LEITURA USAVA APENAS UMA PORÇÃO DAS SETENTA E OITO CARTAS DO BARALHO. TRÊS, OU DEZ. TALVEZ UMA OU DUAS MAIS, SE FOSSE NECESSÁRIO UM ESCLARECIMENTO. A POSIÇÃO DE CADA CARTA FAIA UMA PERGUNTA: QUAL O ESTADO DO SEU INCONSCIENTE? DO QUE VOCÊ TEM MEDO? DO QUE VOCÊ PRECISA? CADA CARTA COLOCADA NAQUELA POSIÇÃO FORNECIA UMA RESPOSTA.”

O tempo, para quem sabe olhar de perto, não é uma incógnita. Está dentro de nós, bem como suas respostas. O frio na barriga do novo é maravilhoso, porque algumas coisas não se podem saber, nem mesmo o tarô responde: é quando a gente temo “baralho trancado”, com algumas cartas saindo invertidas no meio ou ao final de uma leitura de três cartas (as mais comuns são o diabo e a roda da fortuna invertidas, que sinalizam não haver resposta imediata àquela questão ou que aquilo é um desvio do que realmente queremos saber).

“TODAS AS MULHERES HAVIAM VIRADO CINCO VERSÕES DIFERENTES DA TORRE.”

A torre, como símbolo, significa solidez e estabilidade: nesta carta, também conhecida como “A Casa de Deus”, ela está sendo atingida por relâmpagos, e pessoas se atiram do alto. Significa reviravolta negativa, mudança, catástrofe. Mas cada mulher da Rua Fox, 300, viu a catástrofe por um viés, e com saídas possíveis ou não. A resposta dramática de Calla, que todas morreriam algo não fosse feito, é objetivada por Maura: estamos todas no meio do caos, não vamos morrer agora, a carta única só demonstra o que todas estamos sentindo como uma coletividade de videntes. E o que talvez possamos fazer quando nos acalmarmos.

do tarô de TRC, Maggie Stiefvater, a carta da Torre, o incêndio incontrolável

“VAMOS FAZER UMA LEITURA DE VIDA INTEIRA.”

Eu chamo esta “leitura de vida inteira” de leitura do mundo, no geral 12 cartas que dão um aspecto geral da vida da pessoa até o momento, com arcanos maiores e menores se cruzando. Vezes cinco, como foi feita por Calla, Maura, Jimmy, Orla e Gwenllian, nossa, mostrou coisas não muito agradáveis sobre o passado e presente, mas costuma orientar bem as leituras seguintes sobre o que fazer então, conduzindo as leituras que agrupam três ou cinco cartas. Não acho muito confiável fazer leituras de “sim” ou “não” com carta única, como as mulheres da Rua Fox fizeram, porque o resultado pode ser aflitivo demais (a Torre delas, por exemplo) e também maniqueísta, o que não é bem recebido pelos próprios símbolos do tarô.

O tempo é uma ciranda, e ele se mostra com sua grandeza se soubermos ter paciência. Saber sobre o tempo é mais do que uma questão de suspense: é um ponto de autoconhecimento e entendimento que as respostas que ele não dá não querem nos afligir, e sim nos preparar para a sabedoria de que nem tudo pode ser sabido, nem tudo é para ser controlado, nem mesmo o tempo, antes medido nos calendários, se mostra com essa fixidez esperada, os suspense sobre o que vai ser nos constrói a todos os dias. O tempo é um aprendizado.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.