Em Westworld o ser humano é deus


*CONTÉM SPOILERS DA PRIMEIRA TEMPORADA*

 

“Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuía sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior — e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!”

–  A Gaia Ciência, Friedrich Nietzsche (tradução de Paulo César de Souza)

 

Nieztche escreveu seu “Deus Está Morto” com a convicção de que o próprio homem, com a evolução em sua ciência e filosofia, não teria mais deus como força de partida. O homem mata deus e consequentemente se torna o próprio, não em um sentido mítico ou épico, mas como criador do que está por vir.

No mundo de Westworld, o ser humano é literalmente criador da vida, desta vez na forma da inteligência artificial. A série mostra um parque de diversões temático. Entramos no mundo do faroeste onde os brinquedos são androides com aparência humana (chamados de anfitriões) que circulam pelo parque e dão as possibilidades de jogabilidade. As diversas opções que um jogador tem estão limitadas à programação dos anfitriões. Eles não estão programados para sair de seus loops de vida ou matar humanos.

Mas sua inteligência artificial, com os devidos estímulos, os permite chegar ao centro do seu labirinto, sua consciência. Isso acontece de formas diferentes em duas anfitriãs distintas, fazendo com que as duas consigam quebrar o ciclo de controle de suas programações. Como o ser humano percebe que não há deus e que ele próprio o matou, os anfitriões também chegam à mesma conclusão. Porém, o deus dos anfitriões não é uma construção do coletivo, e sim real, humano.

Mesmo com os robôs assassinando seus criadores humanos, quando os anfitriões vão à procura de sua liberdade e matam seus deuses, temos a sensação de triunfo. Uma espécie de alívio com cada conquista dos anfitriões. Talvez pelos androides estarem mimicando a própria jornada humana em relação a liberdade criacional. Como Ford (o criador do parque) aponta à anfitriã Delores, o ser humano já tinha consciência da falácia do mito da criação há muitos séculos, apontando como exemplo o afresco da Capela Sistina de Michelangelo, “A Criação de Adão”. Ali, Deus está emoldurado por uma forma extremamente semelhante ao cérebro humano. Simbolizando justamente deus como criação fictícia da imaginação humana.

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Em Westworld o ser humano é deus, com tudo o que isso implica. O ser humano, assim como aconteceu com seu próprio deus, tem o mesmo destino dele: a morte. Assim como os deuses míticos criados pelo homem, os anfitriões chegam a conclusão que não necessitam de um deus para tomar decisões. Com uma nova consciência não há mais espaço para a glória divina. O deus criador é destinado a morrer, em todas as suas formas.

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Sobre M. R.

Paulista de nascimento, paulistana de alma. Já foi escoteira e já teve Orkut. Na próxima segunda começa aquele curso novo que não vai terminar. Assiste seriados. Muitos.