Em defesa de Lorelai Gilmore


Texto: Lorena Pimentel

Nós já falamos sobre Gilmore Girls aqui na Pólen. Como boas feministas e nerds de TV que somos, não é difícil voltar a Star Hollow não importa qual seja o assunto. E, afinal de contas, é um clássico de maratonas e fandoms na internet. Mas ao falarmos de família, Gilmore Girls tem várias. Hoje, no entanto, vou focar em um relacionamento em especial: Lorelai e seus pais.

Agora, entendo que há quem pense que ela é imatura e que os pais dela só queriam o melhor em sua vida e na da neta. Entendo mesmo. Mas meu texto de hoje, caso vocês não tenham notado pelo título, é para defender as atitudes que ela toma durante a série.

Para quem vive em um contexto de pais não controladores, pode ser difícil compreender. Mas Emily e Richard (esse, em especial e a todo um outro nível, mas vamos chegar lá) são controladores. “Ah, mas eles tem boas intenções”. Bom, só as intenções. Quando digo que eles são controladores, é porque eles criaram uma filha para não destoar – nem por um segundo – do caminho que eles imaginaram para ela. E o problema aqui é que a Lorelai sai dele completamente.

Começando pela Emily. A Emily eu até entendo. Uma mulher criada para ser esposa tradicional de homem rico sabe que atingiu o maior status que poderia alcançar. Sua vida tem amor e conforto, por que não querer o mesmo para a filha? Mas ela ignora que a filha não quer ir a bailes e chás da alta sociedade. Isso, claro, na adolescência. E o que nós ouvimos por aí? Que adolescentes são chatos e suas vontades não devem ser respeitadas.

Com Richard, a situação é ainda pior. Eu nunca gostei dele, nem quando assisti a série pela primeira vez e mantenho minha opinião de que ele é de longe a pior pessoa (minhas desculpas a Dean Forester, que perdeu seu trono) da série. Isso porque, além de querer contrariar tudo que a filha gostaria de fazer em sua vida, ele também é a representação do poder patriarcal em uma série cheia de mulheres incríveis. Controla a filha, mas também controla a esposa.

Eis que Lorelai fica grávida e foge de casa. “Ah, mas ela era adolescente e imatura”, você diz. Sim, mas aí ela cresceu. Ela cresceu fora dos padrões de Hartford, da alta sociedade. Ela criou uma filha sozinha na maior parte do tempo, muito bem, obrigada, e se tornou uma adulta bem-ajustada. Estamos na época do piloto da série. Ao entrar em contato com os pais – para que eles, ricos, oferecessem ajuda financeira para a educação de Rory – ela se compromete a jantar com eles uma vez na semana. Primeiro strike: controlar companhia pelo dinheiro. Parece controlador escrito assim? Pois é.

Quando o relacionamento deles começa a ficar mais próximo, Lorelai se preocupa com a influência que o contato direto com os avós pode ter com sua filha. Afinal, ela lutou muito para se livrar das amarras. E ela tinha razão em se preocupar com isso. Rory, que sonha em entrar em Harvard, é obrigada (porque, em relações de poder, se a pessoa com mais poder insiste que você deveria fazer algo, se torna obrigação) pelo avô a ir em uma entrevista para Yale. Ok, Rory acaba gostando de Yale, mas será que ela realmente teria ido para lá se não fosse o empurrãozinho do avô? E o quanto isso é só um empurrãozinho quando se trata de membros da família e o medo de decepcionar as expectativas?

O mesmo acontece com a Lorelai. Ela se deixa convencer de que Luke, durante seu namoro, deveria ter mais contato com Emily e Richard. O que acontece? Os dois são preconceituosos com ele, tudo com as tais boas intenções. Quando Lorelai questiona essas atitudes, é minimizada. ‘Quê isso, deixa de ser exagerada”. São, na verdade, inúmeras durante a série as vezes em que Richard e Emily querem mudar algo na filha e na neta. As roupas, a aparência, os estudos, o trabalho, a casa, os relacionamentos. Se não está dentro das expectativas deles, eles veem como errado. E isso é um relacionamento controlador.

Em conversa com a Bárbara, uma vez, concluimos que quem diz que Richard e Emily não são controladores e pais abusivos é porque não os tiveram. Para quem vê uma família de fora (isso não só na TV, mas na vida real), reclamar de pais é coisa de gente imatura. Afinal “eles fizeram tudo por você” e “você tá só sendo implicante”. Mas na verdade, não é bem assim. Justamente pelo medo que as pessoas sofrem de decepcionar os pais ou porque eles tem poderes sobre os filhos, mesmo na vida adulta, que os filhos acabam tendo atitudes que parecem imaturas, exageradas ou loucas. Isso é gaslighting também. Tá na hora de não justificarmos comportamentos abusivos porque são dentro da família.

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.