Em Busca do Vale Encantado


Texto: Marina Cavalcante // Arte: Gabriela Amorim

Quando a gente ganha um prêmio, faz uma viagem incrível, passa num concurso ou acontece qualquer outra coisa assim (tida como “grande”, “massa”, “marcante”), a gente fica querendo que outra coisa grande, massa e marcante aconteça na vida da gente. Mas a vida também é tédio, a vida também é mais do mesmo, a vida também é João Pessoa.

Meu melhor amigo, Guilherme, é dessas pessoas sonhadoras, mas com o pé no chão. Queria ser assim, mas ou eu tenho o pé no chão ou eu sonho. Os dois ainda não consegui. Deve ser um problema de aquariana com lua em virgem. Meu melhor amigo sempre tem grandes momentos no ano ou no mês ou na vida, e ele celebra como se fosse morrer no outro dia e depois deixa aquilo no passado, como se o melhor ainda estivesse por vir. Que lindo isso, não?

Não consigo ser assim. Primeiro que meus grandes momentos são também pautados por crises; segundo que quando acontece algo muito massa, eu fico com saudade. Guilherme não é de transparecer muita saudade do passado porque para ele, o que rolou, rolou, foi bom e bola pra frente.

Apesar das nossas diferenças em relação ao passado e ao futuro, tanto eu quanto Guilherme quanto (acredito) uma boa parte dos meus amigos vivemos nossas vidas (animadas ou não, em João Pessoa ou fora daqui)  à espera de algo maior, que vá mudar nosso rumo e trazer mudanças que a gente não consegue executar no tempo presente.

Dizem que ansiedade é excesso de futuro, e depressão, excesso de passado. Acho que todo jovem adulto deveria receber o diagnóstico de “problemas em viver no tempo presente”. Se desanimei alguém com este texto, peço desculpas por desanimar mais ainda com o que vou dizer agora: nem sempre isso passa, e nem sempre isso tem que passar. Minha avó acabou de completar 79 anos (!!!) e ainda está em busca da felicidade, de algo maior, do tal do Vale Encantado. Ela se sente triste com isso, diz que não realizou grandes coisas na vida e tudo ficou no plano dos sonhos, mas, do fundo do meu coração, acho que é isso que a mantém viva, cheia de energia e com esperança de um amanhã sempre melhor que o hoje.

Não sei ao certo se os adultos mais velhos que conheço chegaram no vale encantado deles, e se esse vale era o que eles esperavam. Ou se esse vale é a recompensa de tudo aquilo que eles construíram ao longo de suas árduas vidas, sem toddynho pra confortar. A minha geração e a de Guilherme é a do toddynho reconfortante, e também aspiramos por um vale encantado.

Converso com amigos sobre futuro, planos, o dia de amanhã. Ainda não vi umzinho que tenha falado com um sorriso no rosto que está plenamente satisfeito com o presente. Ainda bem! Se estivéssemos satisfeitos e com a vida ganha aos 20 e tantos anos, algo estaria errado. Vejo em mim e nos meus amigos a esperança, às vezes morrendo e às vezes reacendendo, de um amanhã melhor que o hoje. Ansiedade é, de fato, algo a ser analisado na casa dos 20.

“Tô pensando em fazer intercâmbio, mudar os ares um pouquinho, sair de casa”; “Ah, eu vou vendo aí o que a vida dá, mas tenho ambições e projetos pros próximos 5 anos”; “Se isso não der certo, vou fazer aquilo, e se não rolar, volto pra aquela ideia que te falei sobre abrir um negócio com fulano e …”; “Mestrado, depois Doutorado, daí concurso”; “Num sei, minha vida tá boa assim, me estresso menos que no trabalho anterior, mas às vezes me dá uma agonia de morar aqui, essa cidade não tem futuro”; “Filhos vão atrapalhar meus planos, e ainda quero viajar muito nessa vida”; “Tô estudando pra concurso porque é o que tem pra hoje. Pelo menos dá um dinheiro bom”; “Penso em ficar aqui, mas se não der certo eu volto, ou vou fazer um curso em Nova York, ou Berlim, Argentina…”; “Eu quero dominar o mundo, velho. Sério mesmo. Tô fazendo isso, aquilo, aquilo outro, entrei em contato com fulana e ela me disse que quando eu quiser trabalhar com ela, é só ligar. E depois, quem sabe, publicar num sei o que num sei onde, né”; “Olha, eu não sei nem se to estudando o que eu queria, mas voltar atrás eu não volto”.

Morar fora, enriquecer, ficar viajando sem rumo pelo mundo, ter coisas ou não ter coisas, ter filhos ou não ter filhos, investir em imóveis, trabalhar pra ganhar dinheiro, trabalhar pra ganhar prestígio, trabalhar pra não passar fome, estudar pra ter um futuro, largar tudo e viver do que a natureza dá.

Todo mundo fica procurando um indício de felicidade em qualquer futuro que projeta. Tenho amigos que pensam que só serão felizes em qualquer lugar fora de onde atualmente vivem. Tenho amigos que investem numa pós-graduação porque é o caminho mais certeiro e seguro de ser seguido na área em que atuam. Tenho amigos que estão dando uma pausa, vivendo com tranquilidade, mas atentos às oportunidades. Tenho amigos que sonham alto, tipo ao infinito e além, e cada um tem a sua perspectiva do que seja “alto”: grana, um nome, grandes viagens, publicar um livro, a presidência. Tenho amigos bem #gratidão que nadam conforme a maré e, portanto, nunca se afogam. O futuro é tão imprevisível e incerto quanto a própria vida.

O problema em pensar sobre o futuro é que, na cabeça da gente, todo mundo já tem o futuro garantido, planejado e tudo aquilo que a gente projeta sobre o outro vai acontecer. Mas com a gente pode ser que não aconteça e a gente vai entrar em depressão e virar a senhora dos gatos. Tá difícil eu virar essa pessoa porque sou alérgica a gatos e nós não nos damos muito bem.

O futuro do vizinho é sempre mais claro e correto. O nosso, incerto e nebuloso. No final das contas tá todo mundo em busca do vale encantado, de um oásis, do pote de ouro no final do arco-íris. A nossa busca é tão incessante que às vezes perdemos a noção de que já vivenciamos e conquistamos vários vales encantados, vários grandes momentos, várias felicidades e aprendizados.

Ouvi recentemente uma pessoa falar que o objetivo dela não é ser feliz, e sim ter uma vida interessante. Você já se imaginou vivendo uma vida que não te instigue a viver? O que importa chegar no Vale Encantado se a busca por ele é insossa? Por mais vidas e caminhos interessantes, e por menos futuros embalados pra presente.

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Sobre Marina Cavalcante

Marina tem 25 anos e é formada em Jornalismo pela UFPB. Nascida e criada em Recife - PE, atualmente mora em João Pessoa - PB. Já morou em Melbourne - Austrália e planeja viver em algum outro lugar que a faça sair da sua zona de conforto. Quando não está escrevendo, está vivendo para escrever. Seu maior sonho é viver do que escreve. Para mais da Marina, visite o seu blog, o marinabrazil.com.br.