Em busca da Terra do Nunca


Um medo que talvez você nem saiba que tenha, mas que muito provavelmente tá escondidinho aí no seu peito, é um temor que muita gente compartilha: o medo de crescer, virar adulto, partir pro mundo.

Eu sei que essa é uma preocupação constante na minha vida, pelo menos, mas não estamos sozinhos! Se prepare pra encarar milhares de referências e trechos de um livro que, se você ainda não leu, tem que pegar pra ler agora, ou se leu na escola quando mais novo por pura obrigação, esse é o momento de pegar a obra de novo e dar a ela a apreciação que ela merece.

Já chego lá. Mas voltando ao medo de virar adulto.

Em 1983, o psicólogo norte-americano Dan Kiley introduziu a ideia da Síndrome de Peter Pan, conhecida como um trauma que bloqueia a maturidade emocional da criança. Ela se caracteriza por um conjunto de comportamentos apresentados por homens que não querem deixar de ser crianças e esperam ser entendidos pelos demais. Porquê o Dan quis reduzir essa síndrome aos homens eu não sei, mas que muita mulher também sente isso – em vários níveis, claro – pode ter certeza (to aqui pra provar, inclusive).

Essa teoria faz referência direta ao personagem de J. M. Barrie, que mora na Terra do Nunca, uma ilha onde ninguém cresce, um lugar encantado onde se pode ficar criança para sempre. Mas a literatura tem diversos personagens que compartilham dessa crise de maioridade, e um dos mais representativos deles é Holden Caulfield, o protagonista do clássico O Apanhador no Campo de Centeio.

Chegamos onde eu queria chegar (com uma ajuda preciosa do nosso querido John Green – que por acaso ama esse livro e apenas cria personagens que estão sempre em crise de virarem adultos – e suas deliciosas aulas de literatura no Crash Course) :

O Apanhador no Campo de Centeio conta a história da expulsão de Holden Caulfield do internato Pencey, e sua viagem de volta para casa em Nova York, período em que ele vaga durante alguns dias tentando encontrar alguém que o escute e reaja de forma significativa sobre seus medos de se tornar um adulto. O personagem narra sua jornada em primeira pessoa, o que torna tudo mais pessoal e honesto.

Na narrativa, Holden cresceu 15 cm no último ano e um lado de sua cabeça está cheia de cabelos brancos, apesar dele ter apenas 16 anos de idade – ambos símbolos de uma iminente e inevitável maturidade, acompanhada pela adulteração da inocência. Ele é tão obcecado pela proteção da inocência, que não consegue nem jogar uma bola de neve em um carro:

“Cheguei a começar a jogar, num carro que estava estacionado do outro lado da rua. Mas mudei de idéia, porque o carro estava bonito pra chuchu, todo coberto de branco.”

O tempo todo, Holden procura pessoas que possam dizer pra ele que virar adulto vai ser moleza – amigos, professores, uma prostituta, uma freira, um taxista.. – mas ele nunca consegue encontrar uma maneira de fazer a pergunta de forma direta e, de qualquer jeito, ninguém presta muita atenção no que ele fala.

O que Holden quer é parar o tempo. O que ele diz sobre o Museu de História Natural reforça esse desejo:

“Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição. Ninguém se mexia. A gente podia ir lá cem mil vezes, e aquele esquimó ia estar sempre acabando de pescar os dois peixes, os pássaros iam estar ainda a caminho do sul, os veados matando a sede no laguinho, com suas galhadas e suas pernas finas tão bonitinhas, e a índia de peito de fora ainda ia estar tecendo o mesmo cobertor. Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós. Não que a gente tivesse envelhecido nem nada. Não era bem isso. A gente estaria diferente, só isso.”

Por isso Holden deseja ser um protetor da inocência, um apanhador no campo de centeio, mas ele mesmo também quer se manter inocente.

“Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

O adolescente só se descreve feliz no final do livro, quando vê a irmãzinha em um carrossel. Quando Holden para de pensar no tempo como uma linha reta em direção ao corrupto mundo adulto e começa a imaginá-lo como um círculo onde alguém gira sem parar, em uma jornada que vai de encontro à inocência, e em seguida se distancia dela, seguindo esse ciclo todo tempo durante a vida, ele finalmente se sente feliz pra caramba.

“Ela correu, comprou a entrada e pulou na droga do carrossel bem na horinha. Aí deu a volta toda, até encontrar o cavalo dela, e montou. Acenou para mim e eu acenei de volta. (…) Me senti tão feliz de repente, vendo a Phoebe passar e passar. Pra dizer a verdade, eu estava a ponto de chorar de tão feliz que me sentia. Sei lá por quê. É que ela estava tão bonita, do jeito que passava rodando e rodando, de casaco azul e tudo. Puxa, só a gente estando lá para ver.”

Eu estava lá. Essa é a sensação que dá. Holden me ensinou que é normal ter medo de virar adulto – na verdade, isso é inevitável. Mas essa não é uma viagem sem volta, a inocência nos acompanha o tempo todo, precisamos apenas aprender a reencontrá-la nos nossos caminhos.

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Sobre Ana Levisky

Ana terminou seu Mestrado na Irlanda e tenta se convencer de que Processo Criativo é sim uma área relevante de estudo. Quando tem tempo faz filmes, já que se formou pra isso.