Eis a questão


Meu pai sempre foi uma pessoa muito correta e exageradamente metódica. Um homem divorciado, que usava com frequência as suas camisas de gola e cores discretas, e antes de ir para seu trabalho na repartição pública da Receita Federal as nove da manhã em ponto, ele lia o seu jornal no café da manhã.

Se tudo ocorresse como eu planejara, aquela seria a primeira vez que o senhor meu pai poderia ver seu único filho como protagonista de um grande espetáculo. Eu e mais duas pessoas disputávamos o papel principal de Hamlet na principal companhia de teatro da cidade. E apesar dele não gostar muito dessa minha escolha profissional, interpretar um clássico de Shakespeare, com certeza, lhe daria orgulho.

Minha confiança de que isso fosse acontecer estava amparada na fala do diretor da peça. Ele me dissera no meu penúltimo teste que, dentre os candidatos que restaram, eu era o único que parecia “um príncipe dinamarquês enganado”. E é claro que depois do que ele disse, eu já comecei a divulgar para todos, a minha vitória iminente.

A questão é que nessa semana alegre, eu presenciei uma sequência de episódios muito duvidosas do senhor Cláudio Irineu Ferreira Neto – meu pai.

Na quarta-feira, aproximadamente umas cinco horas da manhã, ouvi os passos do meu pai pelo corredor da nossa casa e tentei segui-lo. Porém, depois que ele arrancou com o carro da garagem, não daria para ir atrás dele. Pois, mesmo aquele Verona vermelho da década de noventa, caindo aos pedaços, sabia correr.

Essa tentativa de perseguição aconteceu, porque na segunda-feira comecei a escutar uma conversa picotada no momento em que eu passava pela porta do seu quarto. Um diálogo aos sussurros, e muito suspeito.

– “… O dinheiro… Tem que ser aos poucos… Já… Muito Tempo… Enganar… Receita… Fácil… Na quarta-feira de bem cedo eu deixo tudo com você, e a noite eu vejo como está o esquema… Ok… Tchau.”

Quem conhecia o Senhor Cláudio sabia que ele falava ao celular como se estivesse conversando com uma pessoa em uma boate. Sussurros não faziam parte do seu estilo habitual.

Às nove e cinco da manhã ele chegou a casa em passos mansos tentando fazer parecer que ele estava em seu quarto dormindo aquele tempo todo. Arrumou-se em dez minutos, e saiu sem tomar café da manhã.

Passei o dia todo imaginando o que estava acontecendo. Será que eu tinha julguei meu pai tão superficialmente a vida toda?

Seria esse estilo de vida que ele leva, apenas um disfarce?

Minhas indagações ganharam força quando meu pai chegou mais tarde do trabalho, lá pelas vinte e três horas daquela quarta-feira. Ele estava carregando, de baixo do braço, uma pasta nova, lotada de documentos que a minha vista eram desconhecidos.

Nada era o que parecia. E tudo era o que parecia, ao mesmo tempo.

Meu pai não era o senhor responsável e honesto que eu conheci. Ele era só mais uma pessoa nesse mundo que passava a vida fingindo ser uma pessoa que ele não era. E talvez o seu divórcio fosse uma consequência disso, já que minha mãe nunca me dissera o motivo convincente para ter saído de casa há 10 anos.

O dia do meu teste chegou.Foi na quina-feira daquela semana, e no último teste haviam três avaliadores. Eles estavam sentados atrás de uma bancada, um ao lado do outro, posicionados de frente para o palco, e o diretor estava sentado no meio deles. Eu estava esperando a minha vez tentando não pensar mais na minha semana reveladora e me concentrar para conseguir ir de acordo com as expectativas do diretor. E atuar para mim é ter a oportunidade de criar uma nova vida. Uma realidade que passaria longe do pai falso que eu descobri ter.

Logo quando cheguei a casa, após o último teste, eu me senti duplamente culpado. Toda aquela confusão que e tinha criado na minha cabeça era por causa de um plano que o meu pai armou com o meu tio, o tal homem com quem meu pai falava ao telefone e que também era funcionário da Receita Federal, para comprar um carro para mim em comemoração ao passo gigante que daria na minha carreira. Aquela pasta guardava os documentos do carro e aquela saída secreta da manhã de quarta foi para que o meu pai pudesse organizar essa compra com o meu tio.

Depois de tanto desconfiar do meu pai, eu percebi que para saber a verdade sobre ele, eu só precisaria observar e acreditar no óbvio. Pois para ele, o seu jeito aparente não era uma máscara para esconder alguma coisa secreta por detrás, e sim uma maneira de reforçar aquilo que ele realmente é. Isso não queria dizer que ele não tivesse seus momentos de loucura, e sim que a loucura era o momento de fuga da realidade aparente daquele sujeito insuportavelmente correto.

Do jeito mais difícil eu entendi que, as vezes, de quem esperamos o óbvio, o espontâneo nos amedronta. Mesmo que na vida, em algumas situações,  nada é o que parece ser.

E um mês depois eu levei meu pai para assistir o espetáculo, e sentei-me do seu lado. Pois o cara que mais parecia com o “príncipe dinamarquês enganado” não passou no teste e também se sentia culpado por isso.

 

 

Compartilhe:

davidhist92@gmail.com'

Sobre David

David é um professor de História que divide a sua vida em estudo, trabalho e diversão, necessariamente nessa ordem (mentira). Curioso e admirador da cultura urbana popular. Como bom carioca, ele gosta de se misturar em todo lugar que vai.