Editando silêncios


Texto: Gabriel Martins

Edito os silêncios. Todos os dias, quando estou fazendo reportagens para rádio, o meu trabalho é, além de selecionar as falas, editar as pausas e a respiração. Às vezes, frações de segundo ínfimas que mal se pode ver entre os picos das ondas sonoras. Em outros momentos, trechos nos quais o entrevistado para por alguns segundos e pensa antes de continuar sua resposta. Coincidentemente, também estou fazendo transcrições e aqui é a hora de fazer o oposto. Marco as pausas, não só com reticências e pontos, mas também “(pausa)” para dar a ideia mais próxima de como foram as respostas do entrevistado.

A memória parece ser um agente duplo, transcritora e editora, ao mesmo tempo em que edita algumas pausas, deixa tantas outras marcadamente sinalizadas. Cortamos as viagens de ônibus silenciosas em que estamos de cabeça cheia e cansados demais para ler ou conversar. Colocamos trilha sonora nos momentos tediosos de espera pelo amigo que está sempre atrasado. Apagamos as férias que passamos olhando pro teto ou a greve da faculdade na qual não fizemos nenhum dos trabalhos pendentes.

Por outro lado, certos silêncios são marcos na nossa memória. A falta de assunto do primeiro encontro. A espera pela resposta do processo seletivo da empresa dos sonhos. A nota daquele trabalho que é postado faltando um minuto pro sistema fechar e era a única que faltava para passar.

Os piores silêncios são os que buscamos esquecer. O amigo que decidiu não responder mais um dia, a pausa depois de um “eu sou gay”, aqueles que não podem mais falar. Ironicamente, a ausência de som (ou de resposta) possui uma presença que se impõe no ambiente. Nos momentos de desconforto, o silêncio distorce o espaço­-tempo, expande centímetros em quilômetros e congela relógios.

Não estamos mais habituados ao silêncio. O mundo é um constante burburinho, interrompendo o pensamento, pedindo atenção. Liga­-se a televisão ou o rádio, só para se ter um barulho de fundo. Então seguimos editando, preenchendo, esquecendo­-se da infinidade que existe em um silêncio.

 

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