É proibido proibir


Provavelmente durante as aulas de história da escola, você estudou que a Igreja Católica proibiu alguns livros cujo conteúdo era considerado impróprio e contra os dogmas da instituição. O primeiro Index, como essa compilação era chamada, saiu em 1559. Até 1948 – quase quatrocentos anos depois! – novas listas surgiram, e a medida foi finalmente abolida em 1966 pelo Papa Paulo VI.

Olhando para trás, proibir livros realmente parece uma antiquada medida religiosa. A prática, porém, não ficou restrita somente à Igreja. Instituições das mais diversas ordens – educativas, governamentais e religiosas – até hoje banem títulos considerados polêmicos ou com conteúdo inapropriado para crianças e jovens.

Como o critério de proibição é subjetivo e arbitrário, a American Library Association (ALA) criou a Banned Books Week, um evento que acontece tradicionalmente durante a última semana de setembro cuja proposta é justamente mostrar como qualquer tipo de proibição de leitura é prejudicial à toda comunidade que se envolve com o livro – ou seja, leitores, professores, bibliotecários, entre outros.

Com o slogan “banir livros restringe a nossa liberdade de ler”, a ALA promove a leitura de duas categorias de livros: os banned (banidos) e os challenged (confrontados). Os primeiros são os títulos que foram expressamente removidos das escolas e bibliotecas, enquanto os últimos são aqueles que correm o risco de serem retirados ou de terem seu acesso restrito por conta da opinião de alguém influente – um diretor pedagógico ou a associação de pais, por exemplo.

Sejam clássicos ou contemporâneos, os livros são colocados nessas duas categorias por três justificativas recorrentes: presença de conteúdo sexual, linguagem ofensiva e pejorativa e material inadequado para a idade dos frequentadores do local.

Quais títulos são esses?

Os títulos são mais populares do que você imagina. Da lista dos 100 maiores clássicos do século XX, publicada pela Radcliff Publishing Couse, vários foram banidos de escolas americanas. Alguns exemplos:

  • O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald: presença de conteúdo sexual.
  • O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger: conteúdo imoral, violência, referências sexuais.
  • Lolita, de Vladmir Nabokov: pedofilia, conteúdo inapropriado para menores de idade.
  • 1984, de George Orwell: conteúdo pró-comunista.

Os clássicos, porém, não são as únicas vítimas das listas de proibição. Em 2014, livros populares de literatura young adult também figuraram nesse rol (acesse aqui a lista completa).

Ambientada no Irã, a graphic novel Persépolis, de Marjane Satrapi, foi o segundo livro mais proibido ou confrontado, por ter um enredo com forte conteúdo político. Só perdeu para Diário absolutamente verdadeiro de um índio de meio expediente, de Sherman Alexie, que continha conteúdo sexual, presença de bullying e consumo de álcool e drogas. Outro título YA bastante pop, As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky, o oitavo na lista, foi considerado inadequado por conter consumo de álcool, drogas, presença de homossexualidade e linguagem ofensiva.

Segundo livro mais banido de 2014

Segundo livro mais banido de 2014, Persépolis tem conteúdo considerado “politicamente forte e transgressor”.

É proibido proibir

Boa parte deles fez parte de minha formação como leitora – e de muitos outros jovens. Não conseguiria imaginar um mundo em que não pudesse ler John Green (sim, uma escola na Califórnia proibiu A culpa é das estrelas por conter jovens com câncer que fazem sexo), os dramas de Holden Caulfield ou mesmo as sociedades distópicas de Aldous Huxley ou George Orwell.

O livro de John Green foi proibido na Califórnia por ser considerado inadequado ao mostrar jovens com câncer que fazem sexo.

O livro de John Green foi proibido na Califórnia por ser considerado inadequado ao mostrar jovens com câncer que fazem sexo.

Parte da magia da leitura é justamente a possibilidade que ela nos dá para entrar em contato com universos diferentes, desvendar tabus ou encontrar refúgio para nossos anseios e angústias pessoais. Tocando em temas considerados polêmicos por pais ou professores, encontramos nas páginas dos livros um outro mundo de referências.

Proibir ou dificultar o acesso a certas obras não evita que tenhamos contato com a problemática que está presente nelas. Além disso, é papel da literatura poder abordar esses assuntos com a liberdade que a ficção permite. O incômodo é consequência – e não é esse, afinal, um dos papéis de todas as formas de arte?

A leitura deve ser uma experiência prazerosa, transformadora e enriquecedora, livre de qualquer repressão ou censura. Pensando nisso, e aí, qual título proibido você vai ler durante a Banned Books Week? Começa no dia 27 e vai até 3 de outubro.

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Sobre Camila Berto

Estudante de jornalismo de 21 anos, saiu do interior para vir a São Paulo. Feminista e fã incondicional de Desventuras em Série, usa as muitas horas que passa no transporte público para ler (ou cochilar, quando é de manhãzinha). No Twitter é @1251camila, em que tenta encarar com bom humor os percalços da vida na cidade grande (mas nem sempre consegue).