E a realidade superou a ficção


Gabriel García Márquez, colombiano da cidade de Aracataca, escreveu sobre Pablo Escobar com uma perspectiva e pontos de vista distintos daquilo que nos foi apresentado pela série Narcos, exibida pela Netflix. Dois grandes nomes da Colômbia (fora a Shakira, né) juntos de alguma forma. Gabo não escreveu Notícia de um sequestro da maneira tradicional, mas sim retornou à compilação jornalística, reunindo em prosa o depoimento de sua amiga Maruja. Ela era sobrevivente da operação orquestrada para pressionar o governo colombiano a flexibilizar a lei quanto aos chamados extraditáveis-traficantes que segundo a nova norma seriam enviados aos Estados Unidos para responder por seus crimes, o que ocasionou o sequestro de nove jornalistas.

Como estudante de direito, considero absurda a ideia de extradição de nacionais, uma medida desesperada motivada principalmente pelo governo dos EUA, que no momento estava em plena guinada conservadora, declarando guerra às drogas que entravam em seu país, principalmente por Miami. Mas a Colômbia tem um sistema jurídico de civil law (leis baseadas mais em códigos de legislações escritas que em costumes) muito semelhante ao brasileiro, por sua vez distinto em vários pontos da common law (compilação de costumes com legislações mais esparsas). Por isso a extradição de pessoas que nasceram em solo de um país para serem processadas e julgadas em outro com sistema legal e normas totalmente diferente me parece exagerado. Os extraditáveis tinham a mesma opinião.

A razão para a maioria dos países da América Latina contar com um sistema mais rígido de criação e alteração de textos legais explica-se pelo passado e presente autoritário dessas nações. Dessa maneira, o decreto feito às pressas pela comissão de Gaviria (que já era a alteração de um diploma anterior) careceu de segurança jurídica para além de violar o princípio básico de direitos humanos de não-extradição de nacionais. Como mencionado acima, os sistemas legais dos EUA e da Colômbia têm muitas discrepâncias que acabaram realmente gerando um enorme prejuízo aos direitos humanos dos chamados extraditáveis, eis que as penas seriam muito maiores (no caso dos irmãos Ochoa, e.g., prisão perpétua). Os sequestros descritos nos episódios mostram as tentativas de escapar dessas penas e negociar com o governo contra esses decretos.

12211073_10207800252507267_1904763475_oO que no livro também é uma aula de história colombiana, no seriado está repleto de licenças, digamos, “poéticas” da história segundo os americanos e a autobiografia de Pablo Escobar; assim, o roteiro não consegue se desvencilhar das armadilhas do discurso do americano salvador nem do bandido com um tanto de herói. No livro, temos muito mais explícito o quadro de como o governo da Colômbia muitas vezes esteve sozinho para lidar com a questão da saída de drogas de seu país e de como o terrorismo foi uma forma não só de barganha, mas também de aterrorizar a população civil. Os desastres nos enfrentamentos contra Escobar também são contados de formas mais cruas e sem apelos à grandeza dos extraditáveis.

Pablo Escobar Gaviria (coincidentemente o mesmo sobrenome do presidente com quem ele viria a ter muitos atritos, mais do que com o presidente Turbay) nasceu sob o signo de sagitário na cidade de Antioquia e começou a vida como contrabandista de cigarros e bebidas. Mas descobriu no tráfico de cocaína a oportunidade de aumentar seus ganhos; no seriado, esta descoberta é feita através de um traficante chileno. O livro nada fala sobre a figura de Escobar além de seus atos de terrorismo e violência. Além de tudo isso, virou um mito. Não é incomum figuras de criminosos aliarem para si uma aura mística e de heroísmo (vide Lampião aqui no Nordeste, nosso Robin Hood brasileiro e sanguinário). García Marquez, por seu lado, não demonstra qualquer simpatia pela figura de Pablo e relata a brutalização de seus sicários, recrutados desde muito jovens para fazerem parte da rede do tráfico, mas que também tinham tanto medo da morte e de torturas quanto as pessoas encarceradas.

“Prosperou a ideia de que a lei é o maior obstáculo para a felicidade, que de nada serve aprender a ler e a escrever, que se vive melhor e mais seguro como delinquente do que como gente de bem.”

Uma das coisas que mais notei como discrepante na leitura do livro foi a descrição do atentado contra um avião que supostamente transportaria o então presidente Gaviria: Gabriel nos conta que o intuito de Escobar nunca fora assassinar o presidente nesse atentado, porque ele já há algum tempo não voava em voos comerciais. Isto era de conhecimento comum em todo o país. Ou seja, o episódio do seriado que se orquestra sobre a tentativa de Escobar de abater Gaviria em um voo comercial é levemente delirante. A morte das pessoas com a bomba no avião não teve nada de acidental ou colateral, foi um ato deliberado eliminar todas aquelas vidas. A seguir, o trecho em que isto é esclarecido:

“Erro sinistro, pois Gaviria não teve nunca o propósito de viajar naquele avião. Mais ainda: a segurança de sua campanha proibira-o de voar em aviões de carreira, e numa ocasião em que o quis fazer teve de desistir, perante o espanto de outros passageiros que trataram de desembarcar para não correrem o risco de irem no avião com ele. A verdade era que o país estava condenado no centro de um círculo infernal.”

Roberto Bolaño, escritor chileno que vivenciou a elevação da violência da América Latina nos anos 80 e 90, no livro “Putas Assassinas”, tem um conto, “O Olho Silva”, com uma citação que explica muito da atmosfera pesada e banhada em sangue daquela época:

“Mauricio Silva, vulgo o Olho, sempre tentou escapar da violência, mesmo com o risco de ser considerado covarde, mas da violência, da verdadeira violência, não se pode escapar, pelo menos não nós, os nascidos na América Latina na década de cinquenta, os que rondávamos os vinte anos quando morreu Salvador Allende.”

De fato, essa passagem explana muitas das reações tanto do governo como dos extraditáveis: a violência tanto do Estado quanto dos traficantes era moeda de troca. Em um dos episódios da série, o agente Murphy indigna-se com as constantes práticas de tortura e assassinatos por parte da polícia colombiana e dos próprios agentes do DEA que estão a trabalho no país há mais tempo que ele. Então há a resposta de que todos os dias se perdem homens, parceiros, amigos, e um dia surge a demanda para a conta se igualar.

Outra diferença de abordagem é a ênfase dada aos sequestros. O livro de García Marquez está centrado nesses eventos que culminaram em muitas mortes e tensões, além de expor o despreparo e corrupção da polícia. Na obra literária, também se fala sobre Diana Turbay, filha do ex presidente Turbay, jornalista sequestrada para que os extraditáveis pudessem fazer pressão contundente sobre o governo, que no seriado tem quase todo o destaque da história dos sequestros para si. Após uma operação catastrófica da polícia, Diana é atingida por um projétil de armamento de guerra, do tipo que segue estilhaçando-se pelo corpo mesmo quando já dentro do organismo. Pela descrição de Gabriel, Diana foi alvejada enquanto estava em trânsito a pé para um novo cativeiro, pois os sequestradores souberam com antecedência sobre a operação de estouro da casa utilizada para abrigar os sequestrados e deixaram o lugar às pressas; assim a jornalista deixou o cárcere ainda com vida e foi levada em agonia a um hospital, onde faleceu dentro de poucas horas. Na série, a operação ocorre com a polícia cercando o cativeiro por operação terrestre e metralhando Diana por acidente enquanto estava escondida em um armário. Diferente, não?

“Segundo a versão imediata da polícia, Diana tinha morrido na sequência de uma operação de busca com apoio de helicópteros e pessoal de terra. Sem terem essa intenção, deram com o comando que levava Diana Turbay e o operador de câmera Richard Becerra. […] A versão de Pablo Escobar era muito diferente e coincidia nos seus pontos essenciais com a que Nydia (mãe de Diana) contou ao presidente. Segundo ele, a polícia tinha feito a operação sabendo que os sequestrados estavam no local […] Disse que Diana fora morta pela polícia quando fugia do combate, já libertada por seus raptores. […] A sua declaração de que o projétil que matara Diana fora disparado de propósito por um dos sequestradores não encontrou apoio firme em nenhuma evidência.”

Apesar de simpatizante com regimes comunistas e socialistas, pude notar no livro de Gabo uma antipatia pelos métodos do grupo M-19, o que me deixou ainda mais fã dele. Nelson Mandela tem uma frase: um grande coração em belas palavras é algo realmente muito raro. A bússola moral de Gabriel, a desaprovar estes sequestros e atentados de um M-19 já apoiado pelo narcotráfico, é certeira. A Colômbia, assim como o Brasil e o todo resto da América Latina, não é para amadores.

Comparando as perspectivas da série e do livro, muitas vezes tive mesmo a impressão de que a realidade foi ainda mais insólita que a ficção e que sim, os relatos tiveram que ser adaptados para o roteiro do seriado para se tornarem mais críveis (!). Não à toa o realismo fantástico nasceu na Colômbia.

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Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.