Duas vezes mais rápido


Eu tinha os olhos fixos na porta quando Antonia a abriu. Consegui sentir o bafo de agosto tentando confrontar o ar condicionado do café. Os olhos dela não demoraram muito para me encontrar; a ansiedade me posicionara estrategicamente dentro do campo de visão de qualquer pessoa que entrasse na loja. Ela tirou os óculos escuros e se sentou ao meu lado murmurando um comprimento. Consegui capturar um relance do azul de seus olhos. Antonia não era do tipo de pessoa que olhava para baixo, mas ela nunca mantinha contato visual por muito tempo.

— Tudo bem?

— Uhum — Ela também não tinha o costume de gastar saliva com cortesias sociais.

— Quer me acompanhar na cerveja?

— Não, obrigada. Você pode me trazer um chá de hortelã, por favor? — Ela conseguia chamar a atenção do garçom sem nem ao menos levantar a voz. No seu lugar, eu ficaria balançando os braços por cima do balcão por três horas antes que eu alguém me notasse.

— Chá? Quente? — O garçom ainda tinha espinhas no rosto e parecia confuso.

— Isso — Antonia respondeu. Fez rápido contato visual com o garoto, que ficou repentinamente corado.

— Ah. Tudo bem.

— Não sei como você consegue tomar chá quente nesse calor — Eu me dirigi a ela, tentando retomar uma frágil linha de conversa que até agora eu não consegui determinar se havia sido estabelecida.

— Questão de costume.

— Coisa de chilenos?

Antonia não me respondeu. Senti a atenção dela se dissipar. Com um arrepio na espinha, percebi que ela fixara os olhos na televisão atrás de mim. Não quis me virar; seria como admitir o meu fracasso em entretê-la. Antonia sempre me fez sentir a necessidade de um próximo truque. Eu suava frio imaginando o dia em que ela me obrigaria a tirar um coelho de uma cartola que eu nem usava.

— Os anos 90 começaram com tudo, né? Só dois anos e o pessoal já tá querendo expulsar um presidente do poder.

— Não vejo nada de ruim nisso

— Nem eu! — Me apressei em dizer. Os olhos dela relampejaram nos meus e se voltaram novamente para a televisão.

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Era 1978 e Antonia tinha sete anos. Ela sempre ficava confusa com altura do irmão, imaginando como seria enxergar as pessoas do alto de seus 20 anos. Matias se agachou até poder olhar dentro dos olhos da menina; ele sempre fazia isso quando sabia que ela estava mentindo.

— Você é amiga do Pinochet — Ele segurou o queixo de Antonia para que ela o encarasse.

— Eu não sou!

— Claro que é! Olha seu nariz! Ele tá ficando marrom, virando madeira! — A menina sentiu o nariz ardendo, por dentro. Ela não sabia se era porque estava prestes a chorar ou se era por que o que o irmão dizia era verdade.

— Não! Eu não tô mentindo! — Começara a chorar. — Eu não sou amiga do Pinochet, meu nariz não tá virando madeira, eu sei que não!

— Matias! Para de torturar a sua irmã — O grito da mãe veio do jardim.

— Antonia — Ele segurou a irmã pelos ombros. — Quando você insiste na mentira, o seu nariz cresce duas vezes mais rápido.

A garotinha saiu correndo. Em menos do que trinta segundos, voltou para a sala com o disco branco nas mãos. Se jogou no tapete da sala, sem segurar o choro, tocando o nariz de levinho. Matias pôs o disco no sofá, sentou em frente a irmã e a pegou no colo.

— Você sabe o que acontece quando seu nariz fica inteirinho de madeira, não sabe?

— Sei — Ela disse enquanto seus soluços abrandavam. — Vão vir me buscar e eu não vou mais lembrar que amo você nem o papai nem a mamãe. E eu vou fazer coisas ruins com vocês sem nem sentir nada. Porque meu coração vai virar de madeira também.

— É feio mentir, Antonia.

— Desculpa — Matias aconchegou mais a garota no colo. A mãe, encostada na porta, olhava furiosa para ele.

— Você precisa parar de falar essas coisas pra menina. Ela só tem sete anos, Matias. Você deixa a pobrezinha desesperada.

— Nunca é cedo demais pra aprender, mãe.

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Catalina veio para sala assim que ouvira o barulho na porta. O filho, encurvado, entrava na casa, parecendo ter 20 centímetros a menos.

— A Francisca sumiu, mãe. Estão falando sobre a Vila Grimaldi.

Ela caiu no sofá enquanto sentia o ar fugir de seus pulmões. Matias trancou a porta de casa e se sentou no chão, os olhos verdes marejados. Já passava da meia-noite e Catalina não conseguira pegar no sono com o filho fora de casa. Não que ela imaginasse que conseguiria dormir agora. As notícias esparsas a assustavam. Ela tinha medo de saber no que o filho estava se metendo.

— Matias, vem dormir comigo? — O barulho havia perturbado o sono leve da menina. Antonia esfregava os olhos, o coelho de pelúcia enganchado em baixo do braço.

— Seu irmão tá ocupado agora, filha.

— Não tá, ele só tá sentado no chão — Os olhos azuis da menina desafiaram a mãe.

— Vem, pequena — Matias pegou a irmã no colo e a levou de volta para a cama

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— Tente ficar calma, Catalina! — Benjamin segurava um copo de água com açúcar enquanto a mulher encarava a janela, com a respiração rasa.

— Como você quer que eu fique calma, Benjamin? Já são mais de duas horas da manhã e o nosso filho desapareceu!

— Ainda é muito cedo para dizer que ele desap…

— Muito cedo?! Benjamin, pare de se fazer de cego! A namorada dele sumiu na semana passada! Ele chegou em casa falando que a tinham levado para a Vila Grimaldi! E a gente  nunca vai saber o que aconteceu!

— Calma, Catalina!

— O meu filho pode estar morto uma hora dessas e você me pede pra ter calma?!

— Ele não está morto! Ele só não chegou em casa ainda!

— Não — Catalina andava em círculos pela sala, mordendo os dedos. — Não, aconteceu alguma coisa. Aconteceu alguma coisa.

— Ele vai chegar mamãe…

— Antonia! — Esbravejou Benjamin ao ver a filha meio escondida atrás do sofá. — Você devia estar na cama! Volta já pro seu quarto. — Antonia deu um olhar gelado para o pai.

— Ele vai chegar, mamãe. O Matias disse que ia me trazer um gibi hoje, sem falta. Ele não é amigo do Pinochet.

Catalina olhou apavorada para a menina enquanto ela se aconchegava no sofá e fechava os olhos para dormir novamente.

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— O que está acontecendo aqui?

Benjamin fora buscar Antonia na escola e, quando voltou, a casa estava revirada. Catalina tremia sentada na mesa da sala de jantar. A garotinha correu, subiu no colo da mãe e afundou o rosto em seu pescoço. Matias não ia para casa há quatro dias.

— Catalina…?

A esposa parecia em estado de choque. Parecia ter envelhecido anos nos poucos dias em que o filho sumira. Aos poucos, Benjamin começara a ter a sensação de que algo mais grave do que uma simples alteração de humor adolescente havia acontecido para o filho ter desaparecido. Ele ouviu barulhos no quarto de Matias e foi em direção ao cômodo. No meio do caminho, dois homens fardados saíram de lá.

— Ora, ora, então agora a família está completa! — Falou o mais alto, um sujeito de bigode negro e olhar sarcástico. Ele passou por Benjamin, se agachou na frente de Catalina e enroscou um cacho do cabelo de Antonia no dedo.

— Então, garotinha. Você sabe onde o seu irmão escondia o diário dele?

— Não. Eu não sei — A menina se virou e não havia traço de lágrima nos olhos azuis dela enquanto encarava o homem.

— Bom, eu acho que você está mentindo. Não está?

— Eu não sou amiga do Pinochet! — Ela gritou.

Benjamin segurou o ombro de Catalina. Suava frio: — Pinóquio. Ela confunde os dois.

O homem se ergueu novamente e encarou Benjamin. Era muito mais alto do que ele. O outro soldado vasculhava a coleção de gibis que Antonia guardava no armário da sala.

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— Você volta com que frequência para o Chile? — Eu não tinha certeza se já havia feito essa pergunta para Antonia.

— Passo o Natal com a minha mãe — Ela respondeu sem desviar os olhos da televisão atrás de mim.

— Ah, seus pais são separados, né?

— São.

— Esse assunto é delicado pra você? Me desculp…

— Não, não é. Eles se separaram quando eu tinha dez anos. Meu pai me trouxe com ele para o Brasil.

Antonia segurou os meus olhos com os seus por alguns segundos. Senti o meu rosto quente. Ansiava pelo dia em que ela parasse de me fazer corar. Mudei de assunto.

— Eu nunca gostei muito de chá de hortelã…

— Sempre foi o preferido do meu irmão.

— Você tem um irmão? Eu não sabia.

— Matias. Treze anos mais velho.

— Nunca tinha ouvido você falar dele. Ele ainda mora no Chile?

— Sim.

Ela tomou o último gole de chá e deixou alguns cruzeiros do lado da xícara.

— Me perdoe, Augusto — Ela finalmente se dirigira a mim enquanto colocava os óculos de sol. — Eu não vejo um sentido nisso.

Eu gostaria de dizer que demonstrara a minha indignação. Como fiquei ofendido com o seu desprezo, seu desinteresse. Como fizera um discurso em que a censurava moralmente e a fazia mudar de ideia. Mas eu só murmurei alguma coisa ininteligível enquanto Antonia saia do café. Da porta, ela se virou para mim mais uma vez.

— Eu não consigo mentir. E detesto perder o meu tempo.

O bafo de agosto tentou confrontar o ar condicionado do café mais uma vez. Perdeu de novo.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco. Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).