Don Draper, aparências e as ilusões criadas por elas


Texto: Fernanda Menegotto

Aviso: esse texto contém algumas revelações mínimas do enredo de Mad Men. Se você tem muito, mas muito incômodo com spoiler, sugiro que não leia – mas, fica o segundo aviso, essa não é uma série de reviravoltas e o enredo nem é tão importante (se você procurar character-driven no dicionário, vai encontrar as palavras Mad Men).

Lá por meados da terceira temporada de Mad Men, num momento teoricamente importante da vida pessoal do protagonista, o Don, a segunda protagonista, a Peggy, diz para ele: “você tem tudo. E tanto”. Ao que ele logo responde, não parecendo particularmente comovido por essa declaração, que supõe que aquilo provavelmente é verdade.

Na primeira temporada da série, Don Draper é uma estrela em ascensão na agência de publicidade onde ele trabalha, e não faltam oportunidades para seguir para lugares ainda maiores. Ele tem ideias geniais, salva campanhas que parecem empacadas, é sempre reconhecido por seu talento. Ele também é ridiculamente bonito, exala autoconfiança, é cheio de poder de persuasão. E estamos na década de sessenta, então ele obviamente tem uma esposa que parece uma Barbie, um casal de filhinhos, uma casa no subúrbio com porta vermelha e, em determinado momento, até aparece com um cachorro. O Sonho Americano inteirinho. Don Draper também parece ser capaz de ter a mulher que quiser fora do casamento, coisa de que a esposa ou não desconfia, ou decide não falar nada.

Faz todo o sentido, então, que a Peggy, uma mulher numa luta constante para ser reconhecida e aceita num meio excessivamente masculino e para ter suas ambições legitimadas e ser respeitada como igual, e que não é convencionalmente bonita nem particularmente carismática, olhe para o Don e pense que ele tem tudo, e tem muito desse tudo. Porque é verdade. Ele tem um trabalho estimulante pelo qual não só é respeitado, mas também é admirado, vive confortavelmente, tem uma família linda sem precisar abrir mão das aventuras extras que quer ter e quase ninguém o repreende por nada.

Seria quase impossível sentir qualquer tipo de empatia (e simpatia) por esse protagonista se isso fosse tudo. É por isso que gosto muito da metáfora usada pelo Bright Wall/Dark Room para falar da série como um todo, mas que também funciona muito bem para o protagonista: “the ocean of pain beneath the smooth surface”. Talvez demore um pouco, embora já esteja lá desde o piloto, mas logo o espectador descobre que a superfície pode até ser tranquila, mas ela é só isso – só a superfície. Don é mais um Homem Horrível (e ele é, sim: marido autoritário, pai ausente, hipócrita, destrata quem bem entender, irresponsável…) numa série cheia de Homens Horríveis. Mas ele é um personagem incrivelmente bem escrito (e bem interpretado) e, conforme o tempo passa, fica mais fácil entender por que ele é como é, faz o que faz e parece estar num eterno ciclo dos mesmos erros, de novo e de novo.

Uma das imagens mais populares do maravilhoso Mad Men Screenshots with Things Drawn on Them.

Não acho que a série busque justificar as ações questionáveis de seus personagens, mas te fazer entender. Um dos motivos por que acredito que muita gente não gosta de Mad Men é que o enredo é quase uma coisa secundária diante do desenvolvimento dos personagens, mas esse é justamente o motivo por que gosto tanto e sou tão apegada à série. Ela tem poucos personagens super gostáveis, cem por cento simpatia – mas também não existe nenhum personagem regular cem por cento horrível (ok, tem o Harry), muito menos do tipo vilão, do tipo que se encontra além de um momento de redenção ou capaz de gerar empatia. Debaixo da superfície de cada um, existe sempre muita coisa e não é raro que essa muita coisa seja, se não um oceano de dor, pelo menos uma pocinha dela.

Uma vez, numa entrevista, o Matthew Weiner, criador da série e roteirista de praticamente todos os episódios, disse que o que ele queria explorar era um cara que tinha tudo, mas que ainda assim era infeliz. Quando ouvi (ou li?) isso, fez todo o sentido. Falamos muito sobre como vivemos numa sociedade que é só aparência, e não essência, e não é por acaso que o pano de fundo da série é uma agência de publicidade. No quesito aparência, no quesito o-que-Don-Draper-teria-nas-redes-sociais (Don Draper definitivamente não teria redes sociais), é quase inconcebível que ele seja tão infeliz quanto ele é. Mas logo você descobre que ele é. E que ele sabe que tem tudo e tem tanto, mas quando é confrontado com esse fato, só consegue responder que supõe que aquilo provavelmente é verdade.

Então, às vezes Don Draper não está em casa, não está no trabalho, não está seja lá onde é que ele deveria estar (por obrigação ou porque simplesmente é onde ele deveria querer estar) porque está com um grupo de hippies ricos e despreocupados, ou com a amante, ou algo assim. Mas às vezes ele abandona uma festinha de aniversário para ficar sentado sozinho no carro olhando um trem passar, e você fica sabendo que tem muito mais ali do que parecia no começo, e a série passa os próximos sete anos te mostrando o quão fundo vai o negócio, e de quão longe no passado ele vem, e o quanto às vezes parece inescapável.

Se eu tivesse que descrever Mad Men nas minhas próprias palavras (colando um pouco do texto do Bright Wall/Dark Room), diria que o piloto é uma bela ponta de iceberg (porque, olha, os visuais são realmente maravilhosos) e os próximos noventa e um episódios vão cada vez mais fundo no oceano, às vezes voltando momentaneamente à superfície, às vezes só estacionando um pouquinho na mesma profundidade. As aparências, na série e na vida, são muito ilusórias. Mas em Mad Men (como nem sempre é na vida) não é difícil enxergar o quanto isso é verdade.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.

  • Ai Fer, esse texto é incrível e estará na minha galeria de links semanais no sábado! Já tentei escrever (e descrever) Mad Men, mas sempre achei muito difícil. Foi um seriado que comecei a assistir esperando uma coisa – o tal cotidiano da agência de publicidade – e recebi muito mais do que isso. Você tem toda a razão quando diz que a história é secundária e o que realmente importa ali é o desenvolvimento dos personagens. Não percebi logo quando comecei a assistir o piloto, mas quando notei fiquei maravilhada e fã pra sempre. Acho que a falta de um “acontecimento maior” acaba afastando o telespectador acostumado com 39 plots twists por episódio, mas a qualidade de Mad Men reside justamente aí. Eles souberam escrever pessoas e pessoas reais, por isso é tão difícil odiar Don Draper, mesmo sendo um homem horrível. Ó, tô batendo palmas. <33

    p.s.: UGH, compartilho da mesma opinião também sobre Harry. Cara chato!