Dolores


Existe algo de fascinante em olhar as pessoas dentro de suas casas, sem que elas saibam que você está observando. Desde pequena gosto de olhar para as janelas alheias, ver o que as pessoas estão fazendo e imaginar histórias, rotinas, amores, ansiedades e angústias para os que estão lá dentro.

Por isso, quando me mudei para o oitavo andar de um prédio de apartamentos, eu não pude evitar de ficar feliz com a minha vista maravilhosa. Eu não vejo árvores, mares, piscinas ou até uma rua normal. Da minha janela, eu vejo todas as janelas dos treze andares do prédio em frente.

Eu não fico o tempo todo na janela como Jeffries, o fotógrafo de “Janela Indiscreta”, relaxa. Mas as vezes, a curiosidade me arrebata e eu não resisto em espiar um pouco.

No geral, minha visualização é só naquele abrir e fechar das janelas, na movimentação das cortinas e no carinho nas gatas que tomam sol. Só isso já basta para que eu tenha uma visão dos meus vizinhos e a formação imaginária de personalidade e histórias completas para eles, mesmo que eu não saiba seus nomes, nem tenha uma visão clara de seus rostos.

No terceiro andar mora uma senhora que tem problemas de locomoção. Para ir de um cômodo para o outro, ela se arrasta no chão, mesmo tendo um par de muletas e cadeiras de rodas à sua disposição. De novembro a janeiro, o barulho de máquinas de costura que vem de seu apartamento é incessante. Plumas, paêtes, brilhos e glitter são visíveis pela janela. A “tia do artesanato”, como foi apelidada por mim e pela minha mãe, trabalha no departamento de costuras da escola de samba do meu bairro e, por isso, sempre tem visita e risada na sua casa.

No quarto andar há um casal de recém casados, cuja cortina é um lençol velho. Gosto de imaginar que eles decidiram se juntar rapidamente, sem planejar muito. Eles nunca estão em casa e, quando estão, dá para ver na janela da lavanderia o varal com roupas e mais roupas brancas estendidas para secar. Devem ser residentes, que trabalham no hospital do outro lado da rua. Eles ficam tão pouco em casa, que ainda não tem um apelido.

No outro lado do quarto andar há um apartamento mais vazio ainda. Eu não sabia que tinha gente morando ali até que, em uma madrugada de dezembro, daquelas de calor insuportável que ninguém consegue dormir de tão quente, eu comecei a ouvir gritos e palmas vindos de lá. Acordada, sem sono e com calor demais para ficar na cama, abri minha janela e fui recepcionada por uma brisa bem-vinda e pela visão completa de um grupo de amigos reunidos para um amigo secreto. Sem os barulhos do dia, pela noite, eu conseguia ouvir que a Mariana tirou o João, seu namorado. Pude ouvir os gritos de “marmelada” e até ver os presentes que foram distribuídos. Não tive escolha se não acompanhar o amigo secreto deles até o final, me sentindo indescritivelmente culpada por essa pequena invasão.

“O Corinthiano” mora no quinto andar. Ele tem esse apelido porque suas cortinas da sala são aquelas de quarto infantil, estampadas com o escudo do Corinthians. Em dia de jogo do Timão dá para ouvir ele gritar – e muito- toda vez que tem gol. No seu apartamento só tem uma televisão e um colchão e ele passa muito pouco tempo por lá, acho que talvez ele tenha uma outra casa, em algum outro prédio.

No nono andar tem uma criança com mais ou menos 4 anos e que tem um gato siamês. Mesmo sendo muito nova, já dá para saber que ela é obcecada por gatos. A garotinha gosta de se pendurar nas telas de proteção da janela e de gritar para os meus bichanos. Sempre que eles estão na janela, é comum ver meus gatíneos olhando para o prédio ao lado, com cara de “essa menina é doida”. Não consigo saber muito mais sobre ela e sua família, porque estão dois andares acima de mim, me dando pouca visão.

No sexto andar há um casal de idosos que não convive muito bem. Digo isso porque sempre há duas luzes ligadas na casa: a da sala e a do quarto. O quarto é território da vozinha, que sempre fica por lá, vendo televisão. Vejo só o topo dos cabelos brancos em frente a TV. O vô fica na sala, também com o aparelho ligado. Vejo a luz azulada da tela, mas não consigo enxergar a tela. Fico me perguntando se eles veem o mesmo programa e por que não fazem isso juntos. Como um relógio, às 22 horas não há mais nenhuma luz acessa dentro do apartamento deles. Às 6 da manhã, no entanto, as luzes já estão acessas.

Mas, de todos os meus vizinhos, a personagem mais enigmática com certeza é a “tia do sofá”. A mulher, que deve ter seus 40 anos, nunca sai de casa e está sempre deitada no sofá, mesmo tendo uma cama grande. No frio, era comum ver ela com dois ou três cobertores, jogada no sofá. No calor, não foram poucas as vezes em que eu e minha mãe (que também adora ver a vida dos vizinhos) a avistamos andando pela casa de sutiã e calcinha. As vezes, a gente via que ela preparava sua janta na cozinha, comia a refeição sentada no sofá e depois deitava por lá, deixando o prato no chão. Hiper conectada, ela estava sempre com o celular na mão e sempre com o notebook por perto do sofá.

Uma vez, depois de uma tempestade com ventos muito fortes, a cortina na cor amarelo-gema-de-ovo da Tia do Sofá caiu e ficou pendurada só por um lado do varão. E ficou assim por uns dois meses. Minha mãe, que sempre detestou desordem, estava quase se oferendo para ir até lá e fazer a arrumação por ela. Nós até batemos palmas imaginárias para Tia do Sofá quando ela finalmente fez a troca.

Pouco tempo depois a gente parou de ver ela. E foi assim por umas três semanas até que minha mãe convenceu a si mesma de que a Tia do Sofá tinha morrido. Toda vez que eu arrumava a cortina para entrar menos claridade eu olhava para os outros apartamentos e via a rotina de sempre, com exceção do apartamento e do sofá.

Não tinha luzes ligadas, computador, pratos perto do sofá ou qualquer coisa que indicasse que ela andava por lá e, mesmo assim, os móveis permaneciam intocados. Por todo esse tempo, se estávamos falando sobre os vizinhos, eu e minha mãe sempre caiamos no assunto “Tia do Sofá”.

Até que minha mãe colocou na cabeça que a Tia do Sofá morreu e que os herdeiros próximos a ela estavam brigando pela posse do apartamento.

Achando que “Meu Deus, que absurdo, não é possível que a Tia do Sofá tenha morrido, minha mãe deve estar errada”, eu tomei coragem, atravessei a distância entre meu prédio e o prédio dela e fui perguntar para o porteiro o que é que tinha acontecido com ela.

Eu dei muita sorte porque encontrei um porteiro bem disposto e que não achou super bizarro o fato de eu estar dizendo que “Olha, eu sou vizinha do prédio ali atrás e tem essa moradora que sempre está em casa e que agora não está mais lá e eu estou um pouco preocupada”. Eu pensei em inventar uma historinha do tipo “a luz está permanentemente ligada já tem três semanas”, mas achei melhor ir com a honestidade.

Sem saber descrever ela muito bem, já que não dava para ver com detalhes, sem saber o nome dela e o número do apartamento, levou uns 15 minutos para que ele entendesse de quem eu estava falando.

“Hm… sétimo andar. Ela é morena, branca e uma senhora. Que está sempre em casa. Olha moça, eu ainda não sei quem é não,” ele disse, entrando na portaria para liberar a entrada de uma moça que me olhava torto, por estar distraindo o funcionário.

“Ela está sempre no computador e quase nunca recebe visita. Eu sei que ela recebe gente de igreja de vez em quando, porque eles cantam musicas religiosas e rezam em círculo,” digo, forçando a memória para tentar me lembrar de algo que pudesse denunciar a real personalidade da Tia do Sofá.

“Sempre no sofá? Moça, é uma que está sempre com o celular na mão?” ele diz, voltando para portaria para liberar outro senhor, que eu reconheci como sendo um dos velhinhos do sexto andar.

“Isso, ela está sempre ou com o celular ou com o computador na mão!” me empolgo, já ficando esperançosa e não acreditando que questionar um porteiro poderia resolver um mistério que rondava o meu cotidiano familiar

O porteiro fica silencioso e empalidece. “Ah, é a Dolores,” ele diz, adotando aquele tom que avisa que a notícia que vou receber não vai ser muito animadora.

“Dolores, esse é o nome dela?” pergunto, tentando incentivar o porteiro a acabar com a minha curiosidade.

“Sabe o que aconteceu, moça? Esses tempos atrás teve um feriado e nesse feriado eu mandei uma mensagem para a Dolores, avisando que tinha chegado um pacote para ela. Era assim que a gente se comunicava. Eu mandava mensagem e logo depois ela descia para pegar. Passou um dia e nem visualizado ela tinha. Quando eu entreguei meu turno pro outro porteiro, eu perguntei para ele se ele tinha visto ela. Ele disse que sim, que ela tinha saído para comprar alguma coisa e que ele viu ela. Mesmo assim, quando ele me devolveu o turno, a mensagem ainda estava sem visualizar. A Dolores ficava super conectada, era difícil ela não responder as coisas.”

Eu nunca tinha sentido tanta curiosidade e receio de saber a verdade ao mesmo tempo. Ele dizia os verbos no passado e, uma vez, em um episódio de CSI, eles ensinaram que quem fala sobre a vítima no tempo passado já assimilou a morte dela. Os “era” do porteiro, não eram um bom sinal.

“Mas e aí, o que aconteceu?” eu digo, prometendo para mim mesma que se ela tivesse morrido eu ia acender uma velinha para ela.

“Nesse dia mesmo, já tinha passado uns três dias que eu tinha enviado a mensagem para ela. Eu decidi ligar para a irmã dela e pedir para ela vir aqui abrir o apartamento. Nós achamos a Dolores no chão, ela tinha tido um AVC e um ataque cardíaco. O SAMU veio e buscou ela e ela ficou um tempão no hospital. Parece que ela teve o AVC e, por ter ficado dois dias inconsciente, sem se movimentar, quando ela voltou, ela teve o ataque cardíaco do susto.” ele diz, me vendo arregalar os olhos. “Ela estava caída entre a cama e a janela e mesmo que um vizinho do outro prédio fizesse um esforço, ele não poderia ter visto ela.” completa, tentando me reconfortar.

“Mas ela tá viva, moço?” eu pergunto, já querendo me bater por não ter tentando matar essa curiosidade semanas mais cedo.

“Sim, ela está sim. Não tem os movimentos do lado esquerdo, por causa do derrame, mas ela está fazendo tratamento e mora na casa da irmã. Esses dias mesmo a irmã dela me mandou uma foto dela pelo whatsapp Ela não deve voltar para esse apartamento tão cedo não, acho que só no ano que vem!” sorrindo, ele dá sinais de que a conversa deve ser encerrada porque o síndico se aproxima.

Antes de sair, ele emenda “é legal que a moça fique de olho nos outros sim. Os vizinhos moram mais perto da gente do que nossa família, então um tem que cuidar do outro. Você não conseguiria ver a Dolores, pela posição em que ela tava, mas se tivesse visto ela no sofá, caída, você teria vindo avisar e a gente poderia ter salvo ela mais cedo,” ele diz piscando. Me despeço, agradeço e pego meu caminho, enquanto ele volta para dentro da cabine da portaria.

Vou embora me sentindo menos mal por ter o hábito de espiar os outros. Quando Dolores voltar para seu sofá e seu apartamento, eu vou encontrar uma forma de escrever “Bem Vinda de volta, Dolores!” na minha janela, para que ela também dê uma espiadinha em mim.

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