Doce rotina


“A rotina é como ferrugem que corrói e arrebenta a engrenagem de preciosa máquina”.

“A rotina é hábito de se negar a pensar”.

Não faço ideia de quem disse essas frases, mas essas pessoas vão ter que me desculpar, porque olha, eu dixxcordo. Está mais do que na hora da coitada da rotina receber o crédito que ela merece.

Antes de tudo, eu preciso avisar que eu sou o tipo de pessoa que nunca desistiu de dar um jeito na própria vida e acorda todo o dia com aquela promessa de que hoje tudo muda. Minha ideia de “dar um jeito na vida”, claro, inclui estabelecer uma rotina e, por mais que meus planos sempre acabem furando (minhas rotinas meio que tem um prazo de validade, sacomé) e minha vida acabe voltando pro caos generalizado, eu sempre sei que, quando tudo passar, é a rotina que vai me dar um sentimento de controle, por menor que seja, sobre essa bagunça que é a vida.

O engraçado é que há alguns anos eu abominava a ideia de ter uma rotina. Achava coisa de gente chata, sem emoção nenhuma, inflexível e que odeia surpresas e imprevistos. Eu queria mesmo era uma vida sem rotina nenhuma, onde todo dia seria um dia diferente e a possibilidade de sair completamente dos planos estaria presente. Rotina, para mim, estava associada à prisão e prisão estava associada à infelicidade. Eu nunca conseguiria me imaginar, hoje, como uma adepta e defensora da rotina, e ainda por cima, alguém cuja vida é mais parada que saci de patinete e está completamente okay com relação a isso.

Mas antes que digam que eu traí o movimento ou que me tornei o tipo de pessoa que eu desprezei um dia, eu explico que não, eu não abri mão de uma vida cheia de altas aventuras e adrenalina e me rendi à automatização da mesma. Eu simplesmente aceitei que o “cair na rotina” é inevitável. Sair dela de vez em quando também é totalmente possível, mas eliminá-la por completo da sua vida já é ilusão. Então, só nos resta mesmo abraçá-la.

Hoje eu percebo que ela se infiltra na sua vida à medida que você amadurece, aceita mais obrigações e passa a andar com as próprias pernas. Não importa se a rotina é desejada ou não, ela vai estar lá, e ela vai estar lá para garantir que você não entre em parafuso e tenha a certeza de que pelo menos algum controle você é capaz de exercer, seja acordando no mesmo horário todo dia, indo para o trabalho, etc, seja ficando em casa na noite que o capítulo da sua série favorita sai ou para ver a novela, ou saindo para correr de manhã. Eu tenho muito mais para administrar hoje do que tinha aos 15 anos de idade. De repente, ter pequenas certezas se tornou algo reconfortante e, por incrível que pareça incrivelmente libertador. Sim, libertador, principalmente para alguém como eu (caseiros assumidos que já cansaram de fingir que são animados).

Por isso, com prazo de validade ou não, hoje eu dou à minha rotina o valor que ela merece, cuido muito bem dela, lhe dou umas férias de vez em quando e sempre que necessário faço algumas alterações aqui e ali que é para a gente não brigar. Mas, sinceramente, se alguém agora vier me falar que eu “caí na rotina”, eu vou considerar isso um elogio ou uma prova de que meus esforços para dar um jeito na minha vida estão finalmente dando resultados. Agora dá licença que vai começar a novela.

NewExperiences.

 

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Sobre Laura

Laura é uma universitária cearense que adora o próprio sobrenome e nunca conseguiu perder o sotaque. Sobrevive no Rio graças à companhia de amigos também forasteiros, muita tapioca, rede e Luiz Gonzaga para matar a saudade quando a coisa tá braba e uma vontade de fazer algo incrível com a sua vida, apesar de ainda não ter a mínima ideia do que seria. Enquanto isso, perde noites demais pensando no sentido de tudo, sofrendo com a formatura que se aproxima e rindo sozinha das próprias piadas que acha serem engraçadas (fazendo isso agora mesmo).