Do zero


Texto: Isabel Moraes

Lenda urbana ou realidade: já houve, de fato, um tempo no qual um diploma de uma  boa universidade e alguma experiência durante a graduação era a garantia de um bom emprego? Ou alimentaram a nós, millennials, com este mito para que nos sintamos mais egoístas e preguiçosos do que já somos taxados?

Ao contrário dos meus ex-colegas de ensino médio, nunca almejei passar em medicina, engenharia ou direito; e minhas ilusões a respeito do mercado de comunicação já haviam sido destruídas antes mesmo do trote.

Parece realismo puro, mas pode ser depressão: não assisti mais do que dois episódios de Girlboss, mas uma das frases da protagonista já virou parte da minha pequena coleção de provérbios – a vida adulta é onde os sonhos vão para morrer. Tomei, portanto, o caminho mais prático, que satisfaria meu eu virginiano obcecado por planos certinhos e supus que, graças a meu gosto pelo estudo e a escrita; a Academia seria uma boa direção se seguir.

Com isso dado, nunca questionei nem fui questionada a respeito: os colegas sempre dizendo que o caminho parecia certo para mim; as pequenas conquistas (monitoria, iniciação científica, trabalho em congresso) se acumulando lentamente. Se me alimentar com a perspectiva de passar o resto da vida em uma carreira que não me satisfaria contribuiu de alguma forma para a lenta deterioração da minha saúde mental durante a faculdade não sei; mas segui, teimosa, nunca me permitindo pensar em caminhos alternativos.

Mas depois de ouvir em uma entrevista que eu não parecia saber muito bem o que fazer da minha vida eu me dei conta – eu realmente não sabia muito bem o que eu quero fazer da minha vida. Sair da faculdade, fazer mestrado, doutorado e um concurso público (num mundo ideal no qual governos golpistas não sumam com eles) era apenas uma solução óbvia, com suas dificuldades de percurso e esforço necessário, mas sem me exigir nenhum ato de fé. Seguir o caminho da Academia (que, coincidentemente, foi percorrido pelos meus pais, que desde o começo foram meus mentores) não me tornaria extremamente infeliz, mas também não me preencheria com felicidade a cada obstáculo transpassado.

Em resumo, eu estava, nos últimos anos, mentindo para mim mesma a respeito do que quero fazer com o resto da minha vida, pelo simples fato de que não saber – o estado em que me encontro agora – é assustador, não ter apoio do meus amigos (que acham que a minha desistência da carreira acadêmica é só uma fase) é assustador, a perspectiva de talvez ter que começar do zero em um lugar completamente diferente é assustadora. Talvez eu não estivesse mentindo para mim mesma sobre o que quero fazer com minha vida somente para fingir escolher o caminho mais socialmente aceitável; talvez eu apenas estivesse reunindo, inconscientemente, a coragem de potencialmente ter minha vida mudada em 180 graus e de talvez acreditar que estar perdida (pelo menos temporariamente) é bom.

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Sobre Isabel Moraes

Baiana de nascença e coração, já passou uma temporada em Praga e hoje mora em Niterói, onde cursa Estudos de Mídia. Ama livros, séries, gatos, cerveja e se empolga um pouquinho demais quando falam de política. Quando escreve, tenta por aquela tal objetividade da qual falavam no colégio, mas não tem jeito: vira tudo egotrip.