‘Do que é feita uma garota’, Caitlin Moran


 Johanna tem uma vida bastante entediante. Ela vive em uma cidade pequena, que já teve sua glória, devastada pela política de Margaret Tatcher (ou, pelo menos, é isso que seu pai fala). Ela tem catorze anos e se vê em uma família um pouco desequilibrada. O pai recebe assistência governamental por questões de saúde, a mãe teve gêmeos e sofre de depressão pós-parto, e os dois irmãos,  junto com Johanna, fazem qualquer coisa para sair do tédio.

Depois de, sem querer, contar a uma vizinha sobre o assistencialismo (e ela questionar a necessidade do dinheiro), Johanna se vê em uma situação difícil: se o governo resolver investigar a família e retirar o auxílio, eles não terão como se sustentar.

Para piorar as preocupações de Johanna, ela passa por um momento humilhante na TV local, ficando conhecida nas ruas como a grande piada da cidade. É aí que ela decide se reinventar e construir uma nova reputação como Dolly Wilde. Dolly Wilde, a garota que faz sexo. Dolly Wilde, que fala o que pensa. Dolly Wilde, que é respeitada por adultos. Dolly Wilde, que é o oposto do que Johanna Morrigan sempre foi.

 

Ela começa a escrever críticas musicais para uma revista famosa, começa a fumar e ir a shows, se transforma da garota estranha de uma cidade pequena em alguém que faz críticas severas a bandas, inciantes ou não, e conquista seu público. Sua nova versão de si mesma parece estar funcionando.

A vida sexual dela também sofre transformações. Antes, ela se descrevia como uma garota gorda com quem ninguém quer fazer sexo, mas durante o progresso da história, Johanna vai para a cama com vários homens mais velhos e reconta experiências de uma forma tragicômica. Esse é, na minha opinião, um dos pontos mais fortes do livro: como ele lida com crescimento e a libertação sexual de uma forma estranhamente realista, já que as experiências dela não são cenas de comédia romântica ou contos de fadas. Ela tem que lidar com as implicações de querer uma vida sexual livre perante expectativas sociais sobre jovens mulheres. Quer dizer, é um livro que começa com Johanna falando sobre masturbação.

O grande objetivo de Johanna é se transformar em Dolly, uma figura lendária, que criou sua própria reputação, que causa medo em bandas quando elas a veem nos shows. Alguém que faz resenhas escrachadas e ganha audiência e o respeito de colegas de trabalho mais velhos e mais experientes (leia-se: homens). Ela coloca a própria vida para viver como Dolly, mas qual é o impacto disso tudo?

Eu nunca tinha entendido o que as pessoas queriam dizer com humor britânico exatamente. Mas esse livro é meio por aí. É uma história coming-of-age de uma adolescente tentando se encontrar no mundo, mas parece muito mais com Skins do que com filmes hollywoodianos. É sobre crescer, sim, mas com conversas irônicas sobre sexualidade, sobre drogas e o efeito que nossas decisões têm sobre nós mesmos. E ah, uma boa trilha sonora também.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.

  • skins foi a primeira referência que me veio à cabeça, mas acho que esse livro é muito mais anos 90 que isso. acho que a semelhança com skins vem mais do cenário e da vibe meio pessimista da história.

    mas sério, é muito legal. leia sim.

  • Lore, você me indicou esse livro e fiquei bem curiosa quanto a ele. Baixei a amostra e achei super diferente? Quer dizer, eu não vi Skins de verdade – uma vez tava passando na tv e parei pra ver, mas achei meio deprimente -, mas os coming-of-age que eu li não sei se parecem com filmes hollywoodianos (alguns com certeza sim), mas acho que não se parecem com… Skins.

    Anyway, bem curiosa. Lerei.