Divas das galáxias: as mulheres de Star Wars


Texto: Priscilla Binato e Rovena Naumann // Arte: Marília Pagotto

A internet enlouqueceu com o teaser de Rogue One – Uma história Star Wars, mas por dois motivos bem distintos. Um lado estava feliz porque, finalmente, estávamos conhecendo um pouco mais dessa história um tanto misteriosa. Porém, o outro lado, o lado machista, estava simplesmente revoltado porque, mais uma vez (sim, MAIS UMA VEZ!) Star Wars estava colocando uma mulher como protagonista de seus filmes. Esse mesmo tipo de reação aconteceu com a nossa linda e maravilhosa Rey, em O Despertar da Força. Algumas pessoas queriam até boicotar o filme tanto por conta dela quanto pelo personagem do Finn, uma história que entra bem mais a fundo no racismo e nem tanto no nosso tema da conversa.

 

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Com Jyn Erso, protagonista de Rogue One, ainda não houve a história do boicote, mas acredito que isso não vai demorar muito. Os machistas já estão reclamando que o “politicamente correto” está tirando a “diversidade” dos filmes. OI?!? Só se for a diversidade de homens brancos em papéis relevantes, como foi por muito tempo em todos os filmes de ficção científica. Falam que Star Wars, agora que é da Disney, virou um filme Girl Power, porque é isso o que dá dinheiro. Falam que as SJW (social justice warriors) e as “feminazi” estão acabando com tudo de bom que acontece nesse mundo, até Star Wars. Como se Star Wars fosse desde sempre uma grande epítome de domínio masculino macho-men que só pudesse ser explorado por homens.

Honestamente, se vocês acham que Star Wars só começou a ter mulheres incríveis agora, vocês precisam ver os filmes anteriores de novo. As duas primeiras trilogias tinham homens como personagens principais (Anakin Skywalker e Luke Skywalker), mas na verdade, as mais fortes ali eram as mulheres. Inclusive, caso vocês tenham tido um caso crônico de esquecimento, sem a Leia Organa o Obi-Wan nunca teria recebido o recado e nunca iria começar a agir porque ele já tinha se apaixonado pela ideia de morar em Tatooine pelo resto da vida. Então Uma Nova Esperança nunca teria começado e ninguém ia ter franquia para se divertir com. E, além disso, sem Padmé Amidala também ninguém ia ter nada porque não ia ter 1) Darth Vader, 2) Luke Skywalker, 3) Leia Organa. Que trama que ia ter sem elas?

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Leia Organa, em especial, além de ser um ícone de múltiplas gerações, é uma personagem que guia grande parte da trama da trilogia original. Desde o começo da história, como já citado, ela tem um papel principal em assegurar que tudo seja feito de forma correta. Para começar, Leia é princesa de Alderaan, foi senadora do Senado Imperial, depois foi líder da aliança para restaurar a República e depois ainda foi a general fundadora da Resistência. Ela foi uma pessoa importantíssima para a queda do Império e agora está sendo uma mulher importantíssima para a luta contra a Primeira Ordem. Leia é muito mais do que a Leia escrava que tanto gostam de sexualizar em todas as formas. Até porque mesmo quando ela estava sendo humilhada e posicionada como uma escrava sexual, ela conseguiu se livrar do seu captor e lhe derrotar com a própria ferramenta que ele estava usando para lhe prender. Isso enquanto usava um biquíni de metal que provavelmente era muito desconfortável. Como a própria Leia fala muito bem no livro Cuidado com o Lado Sombrio da Força:

Essa enorme lesma deixou uma trilha melequenta de dor e vidas arruinadas. Mas pelo menos a vida dele termina aqui, pelas mãos de uma mulher que ele tentara escravizar.

 

 

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Padmé é a mulher que faz a história da segunda trilogia acontecer. Aos 14 anos, ela era rainha de Naboo e anos depois era Senadora do seu planeta. Quando ainda era rainha, ela já usava disfarces para perambular por aí e passar despercebida. Padmé também já participava de guerras e lutava lado a lado com seus soldados, como iguais – e, às vezes, ainda era muito superior a todos eles. E com o passar do tempo, Padmé continuou se arriscando. Por mais que todos quisessem garantir a sua proteção, a moça sempre se julgou capaz de cuidar de si mesma e isso fica claro no Ataque dos Clones, quando Padmé, Anakin e Obi-Wan estão presos em uma arena, arramados a  toras de madeira, prestes a serem executados por criaturas alienígenas de chifres. Anakin diz para Obi-Wan que eles precisam ajudar Padmé a escapar e o mestre Jedi diz que ela sabe se virar. E então vemos a moça escalando a tora, porque ela não precisa que um homem a ajude a se salvar. Padmé morre por ter o seu coração partido e por estar decepcionada com o jovem Skywalker. É bastante irônico quando lembramos que Anakin se tornou Darth Vader numa tentativa de salvá-la da morte, mas ela só se foi porque ele contribuiu para que isso acontecesse. Se Anakin não tivesse se juntado ao Palpatine, talvez nada disso tivesse acontecido.

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Mais recentemente, no incrível O Despertar da Força, nós fomos todos apresentados à Rey. Ela é uma mulher fenomenal. Depois de viver por anos sozinha em Jakku, um planeta abandonado, e tendo que pegar destroços de naves para vender e conseguir comida, Rey se tornou uma pessoa que sabe o que quer e sabe como conseguir. Ela é uma mecânica expert e tem um talento nato para pilotar naves. Ela também sabe atirar e é inteligente e carismática. Aparentemente, esse é o tipo de coisa que uma mulher não pode fazer, já que depois do filme algumas pessoas (provavelmente as mesmas que estão chateadas sobre termos mais uma protagonista feminina na franquia) começaram a chamar Rey de Mary Sue. No caso, uma Mary Sue é uma personagem feminina que é perfeita. Ela sabe fazer tudo e não tem problemas, não tem grandes defeitos. Até agora, sim, Rey é uma personagem que não apresenta muitos grandes problemas que não sejam vindos do seu conhecimento. Porém, ela tem exatamente os mesmos talentos e quase o mesmo fundo que Anakin Skywalker em A Ameaça Fantasma. Por que homens as mulheres não podem ser boas no que fazem?

Só que Rey é muito além disso. Rey é uma porta de entrada. Ela é a mulher que faz com que nós acreditemos que nós podemos ser Jedis também. Nós podemos ser líderes. Nós podemos saber fazer coisas, saber pilotar, construir, caçar. Nós podemos voar com Han Solo e saber entender a Força, saber manejar um sabre de luz e conseguir usar tudo o que qualquer Luke e Anakin Skywalker. Rey é um chute na porta que nos esteve mantendo longe desse tipo de franquia durante tanto tempo e que vai abrir espaço para outras meninas, outras mulheres, assim como está abrindo a porta para Jyn em Rogue One. Ela que é outra mulher incrível que sabe lutar, atirar, combater e, acima de tudo, se rebelar.

This is a rebellion, isn't it?

This is a rebellion, isn’t it?

Além dessas mulheres incríveis, Star Wars também tem outras com papéis menores, mas não menos importantes, como Shmi Skywalker, mãe de Anakin; Mon Mothma, fundadora da Aliança para restauração da República; e Maz Kanata, uma pirata lendária capaz de sentir a Força; e a Capitã Phasma, também conhecida como a Stormtrooper Cromada, que apesar de não ter tido muito tempo de tela em O Despertar da Força é uma personagem que promete!

A questão é: mulheres existem e elas são importantes. Isso tanto no mundo real, o mundo presente, quanto em uma galáxia muito distante. As histórias das mulheres também são interessantes, tão interessante quanto a de homens.Mulheres precisam de representação, tanto mulheres privilegiadas (brancas, magras, ricas, etc) quanto (e ainda mais!) mulheres que sofrem com outros preconceitos além da misoginia. E é por que isso que cada vez mais é necessário ter personagens femininas em destaque em filmes, séries e livros. Star Wars deu o primeiro passo para um universo de possibilidade ainda maior do que aquele que já existia.  Meninas de todas as idades podem finalmente se enxergar como uma Jedi. E se ela quiser ser uma princesa/rebelde/senadora/chutadora de bundas, ela também pode!

A representação estar lá é o primeiro passo para mudar a perspectiva de que as mulheres não podem para a que elas, sim, podem.

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Sobre Rovena

Rovena é de Vitória, formada em Relações Internacionais e atualmente cursa Letras-Inglês. Gosta muito de ler e ouvir música enquanto escreve. Grifinória, feminista e especialista em tretas do blink-182. Está no twitter (@rovsn).