Deslize para a direita para um final feliz


*Desliza pra esquerda*

*Desliza pra esquerda*

Não

Não

*Esquerda*

Bonitiiinho, mas tira foto no espelho da academia

Não

Ahh, ok, vou dar uma chance pra esse tal de Cadu, ele parece ser uma pessoa legal.

It’s a match!

Será que eu devo falar com ele primeiro? Vou esperar um tempinho, continuar vendo os perfis aqui no Tinder, se ele demorar pra falar comigo eu mando um oi.

Não

Esquerda

Não

Ahhh, o moço chamado Cadu mandou um oi. Ainda bem, detesto começar as conversas, sou péssima falando com desconhecidos.

Não é que ele é legal? Estamos conversando há umas três horas e ele ainda não parece ter nenhuma falha grave de caráter (ou seja, ele gosta de Harry Potter e é de um signo decente). Acho que dessa vez pode dar certo.

Saí com o Cadu antes de ontem. Não importa quantas vezes eu faça isso, nunca vou me acostumar a sair com uma pessoa do Tinder. Eu fico pensando que seria bem mais fácil conhecer um cara legal pelos meios convencionais mesmo, mas se eu for depender do pessoal da faculdade ou do trabalho pra conhecer alguém, a coisa não vai andar nunca. Bom, foi bem legal até, ele me levou para um bar hipster qualquer e depois a gente foi pro apartamento em que ele mora. O problema é que ele não fala comigo desde então. Será que eu estou pegando muito no pé dele? Não que eu tenha mandado mil mensagens, só perguntei ontem no fim da tarde como ele estava. Mas já faz mais de 24 horas e nada. Acho melhor dar tempo ao tempo, né? Talvez ele só esteja ocupado.

O Cadu me chamou para sair de novo. Topei, vai ser hoje a noite. Eu já tinha desistido dele, afinal, na minha cabeça, ele claramente não tinha gostado de mim. Confesso que ainda estou meio puta da vida com esse tipo de situação. Eu sei que a gente se conheceu pelo Tinder, e que parece que existe um código implícito nessas relações via apps que elas não são tão “válidas” quanto as relações “convencionais”, por assim dizer, mas poxa, custa responder? 

Eu não acredito que isso está acontecendo comigo. Bom, deixa eu começar do começo. Saí com o Cadu de novo, certo? Ele estava sendo uma pessoa razoavelmente aceitável durante boa parte do tempo, eu nem toquei no assunto de ele não ter falado comigo por quase um mês, então foi tudo ok. Depois a gente foi pra casa dele, transou, foi bom, eu passei a noite lá, etecétera e tal. Aí na manhã seguinte, antes de eu ir embora, perguntei se ele queria ver um filme durante a semana, afinal, queria vê-lo novamente, mas sem a história de ser ignorada por dias e dias. Sabe qual foi a reação dele? Me olhar como se eu fosse maluca e dizer “Não vamos levar isso tão a sério. Quero dizer, a gente se conheceu no Tinder”. Como se isso fosse motivo para ele me tratar dessa forma, I mean, ele quem me chamou pra sair de novo depois de não ter respondido as minhas mensagens.

As pessoas parecem acreditar que se você conhecer uma pessoa pelo Tinder ou outros apps do tipo, você pode tratá-la como quiser. Sei lá, andei pensando muito sobre o assunto e por mais que existissem sites de relacionamentos antes, a coisa não parece a mesma agora. A pessoa que se cadastrava em um site de relacionamento tinha um certo comprometimento com isso, afinal, demandava um tempo criar um perfil e deixá-lo atualizado. Ela não parecia interessada em um simples flerte ou em sexo casual. Nos apps, por sua vez, as pessoas usam mais para matar o tempo ou por diversão mesmo, afinal, é muito simples ter uma conta nele, é tudo vinculado ao Facebook.

Acho que é essa facilidade que passa a impressão de que você não tem compromisso nenhum com quem está falando. Ninguém parece querer que uma pessoa que conheceu dessa forma te pergunte como foi o seu dia. Parece totalmente justificável cancelar um encontro com alguém do Tinder cinco minutos antes, sem dar nenhuma explicação, afinal, você não conhece ela de verdade. É como se os apps te dessem permissão de parar de falar com aquela pessoa simplesmente porque “enjoou”. 

Quantos encontros reais são necessários para que você precise responder as mensagens que a pessoa te manda? Quantas vezes você precisa fazer sexo com ela para que deixe de pensar nela como “alguém do Tinder” e passe a pensar como “alguém que você conhece”? Eu fico pensando nas consequências que isso traz para a “vida real” (uma vez que esses apps mal são considerados como “vida real”). Será que eles estão criando uma geração de pessoas que não se preocupam com os sentimentos alheios? Ou será que é só paranoia minha?

Não estou dizendo que os relacionamentos do Tinder e outros apps do gênero são necessariamente ruins (apesar das minhas mais recentes experiências), afinal, não devemos culpar um aplicativo pela merda que as pessoas fazem. Ao mesmo tempo em que eles pareces ter trazido relacionamentos mais descompromissados, é inegável que através dele acabamos conhecendo pessoas que, muitas vezes, não conheceríamos de outras formas, já que não frequentam os mesmos lugares. 

De qualquer forma eu fico pensando em como serão os relacionamentos no futuro. Sempre vão existir os relacionamentos convencionais (a não ser que a vida se torne tão digital que as pessoas não precisem mais sair das suas casas para nada, é claro). Se nós mudamos tanto a forma com que nos relacionamos desde o surgimento do Tinder, que nem é tão antigo assim, como será que estaremos daqui, digamos, 20 anos? Será que estaremos imersos num mundo tão virtual que será quase como se estivéssemos namorando robôs? Sendo um pouco otimista, ainda torço para que inventem o teletransporte, que permitirá que nos relacionemos com pessoas de qualquer lugar do mundo com muita facilidade.

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