“Desculpe o Transtorno” é uma comédia sobre nós mesmos


Texto: Lorena Pimentel

“Desculpe o Transtorno” é uma comédia romântica nacional em que nosso protagonista, Eduardo (Gregório Duvivier) tem que lidar com suas próprias facetas de personalidade e a consequência delas.

A vida dele, em São Paulo, é perfeitamente organizada. Futuro sócio na empresa do pai, ele tem uma namorada há anos (Viviane, interpretada por Dani Calabresa) e uma rotina perfeitamente montada. Até que, com uma notícia chocante, ele se transforma em Duca, sua dupla personalidade carioca, relaxada e adepta do deboísmo. Conhece a carioca hippie-cult Bárbara (Clarice Falcão) e tem que entender como as duas personalidades (seu transtorno, como diz o título) funcionam e, claro, porque é uma comédia romântica, Duca acaba criando caos na rotina de Eduardo entre várias pontes aéreas.

Eduardo/Duca é um extremo: o transtorno de dupla personalidade não é exatamente muito comum. Mas a ideia de termos um personagem neuroatípico como protagonista de comédia romântica é bem interessante. Ainda que o arco seja de humor, o filme tem o cuidado de mostrar o quanto o transtorno afeta a vida dele, o quanto as escapadas de Duca – curiosamente, quando a segunda personalidade age, a “principal” não lembra do acontecido – afetam a regularidade de Eduardo no sue trabalho de terno e gravata no escritório de patentes do pai. A cena em que Eduardo surta e desperta a questão psicológica não poderia ser mais paulista: em uma fila de aeroporto, ele começa a perder a paciência e, basicamente, surta.

Ainda que a maioria de nós não tenha dupla personalidade, acho que é fácil se identificar com as questões de Eduardo/Duca. Todos nós fazemos algum tipo de performance, assumimos um personagem dependendo da situação. A nossa versão que vai ao trabalho e parece profissional não combina com quem vai pro bar com os amigos. As máscaras sociais que nós adotamos todos os dias são ainda mais intensas no caso de transtornos mentais.

Apesar do protagonista ser bem interessante, são os outros personagens que fazem o filme. Marceleza (Rafael Infante) e Charles (Daniel Duncan) são os amigos e colegas de trabalho de Eduardo. Enquanto este prefere manter a rotina e leva uma vida orientada por objetivos, os amigos preferem não levar tudo tão a sério e tentma fazer com que ele relaxe um pouco, sem sucesso.

Mas quem rouba a cena mesmo são as mulheres. Viviane e Bárbara, cada uma em uma cidade, são interesses românticos de Eduardo. Dani Calabresa é a engraçada Viviane, que pratica zumba fitness e está animada com seu futuro casamento com Eduardo e a vida estável. Todas as cenas em que ela aparece são hilárias e com certeza é a melhor parte do filme. Ela é engraçada e se importa com o noivo, mesmo quando ele tem suas questões pessoais e não divide com ela. Fica o registro de que a cena em que ela lista os próximos programas e comenta sobre a nova estrogonoferia gourmet e o trânsito de Santo André a São Paulo é minha favorita.

Dani Calabresa como Viviane (Imagem: Agência Febre)

Dani Calabresa como Viviane (Imagem: Agência Febre)

Bárbara, por outro lado, faz o tipo #humanas do Rio de Janeiro. Meio incerta do que fazer com a própria vida, ela conhece Duca no meio de sua crise psicológica e toma como missão própria resolver a vida dele. É inegável que ela chega perto de ser só uma manic pixie dream girl, mas conforme o filme vai passando, conhecemos um pouco mais sobre as questões dela mesma também.

Clarice Falcão como Bárbara

Clarice Falcão como Bárbara

O filme, em si, é muito bonito. O contraste entre a beleza natural relaxada do Rio de Janeiro e a simetria construída de São Paulo é gritante. Nós vemos cariocas andando de bicicleta e aplaudindo o pôr-do-sol e vemos a cidade cinza em todo seu esplendor. É tudo, de uma forma ou de outra, visualmente interessante e faz com que a gente enxergue nosso lugar com bons olhos.

Ambas as cidades e realidades de Eduardo aparecem com suas vantagens e desvantagens, a estabilidade versus a incerteza, a vida regrada versus estar despreparado, amigos fiéis versus desconhecido.

Fica aqui uma reclamação sobre a falta de diversidade no elenco que também é típica do gênero. Ok, é todo esse universo gourmet do Itaim contra indies cariocas, mas não precisava ser todo mundo branco, né? É lago bem hollywoodiano que a gente imagina que poderia ser feito diferente no Brasil, mas passou longe.

É uma comédia romântica com o melhor e o pior que há nelas. Personagens fofos, mas com certos estereótipos. Eles são construídos para serem quebrados, como é o caso de Bárbara. Cenários lindos e dramas levemente exagerados. Se você gosta de comédias românticas, é muito legal ver uma ambientada em lugares e com histórias que conhecemos também. E, no fim das contas, é uma história sobre explorar nossa própria personalidade a assumir lados que escondemos durante a vida.

No geral, é inegável que o filme acaba pendendo para o lado carioca. Mas, considerando que eu saí da sala de cinema e encontrei uma tapiocaria gourmet, acho que dá pra entender.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.

  • foi tão ironicamente ridículo que acabou até sendo engraçado, né? mas enfim, o filme é fofo mesmo e apesar de ter recebido mais atenção pela coluna que qualquer coisa, acho que vale sim ir ver 🙂

  • O final do texto, hahahahahahaha <3

    Olha, eu nem sabia do filme se não fosse o texto do gregório, mas pelo seu texto, da muita vontade de ver no cinema e encarar a tapioca gourmet.