Desconectar sem fugir de si


Texto: Lidyanne Aquino

Comecei a correr para fugir das atividades clássicas de academia. O objetivo, na época, era sim perder uns quilos, e também me motivar a não desistir dos planos de me exercitar. Passei por momentos horríveis no início. As temperaturas altas da época e a parede verde logo à frente da fileira de esteiras contribuíram muito para o combo de horror. Quando você está em processo de adaptação precisa encarar esses detalhes triviais – até porque eles sempre viram uma desculpa para interromper tudo antes do previsto. Aos poucos me condicionei e percebi o quanto era indiferente aos arredores. Munida de fones de ouvido, me desligava de imediato e até mesmo o cansaço e a falta de fôlego ficaram suportáveis.

Fiz minha primeira corrida de rua pouco tempo depois e foi um alívio encontrar uma forma tão acessível de me desligar do mundo.

Eis uma pessoa sedentária levando uma bela bordoada na cara. Não dei a louca de querer ser atleta, diminuir o meu pace (ritmo médio por minuto) e fazer uma corrida oficial por fim de semana. Gostava mesmo da sensação proporcionada pela corrida. Imagino que em um dado momento atingimos um nível de exaustão física que nos faz apagar. As preocupações desaparecem em um passe de mágica. Nessas horas crio mil versões de clipes para as músicas da playlist, me imagino fazendo coreografias ridículas para cada uma delas e, caso esteja na rua, exploro as imediações, imagino as histórias de quem se esconde pelo prédios, das pessoas que passam por mim… é um tempo para pensar em um milhão de coisas, menos naquelas que me tiram o sono à noite. Enquanto corro, é como se eles nem fizessem parte do meu cotidiano.

Quando fiz minha primeira meia maratona (21k!), conheci o meu lado motivador e ganhei mais uma grande lição da corrida – se conseguia me estimular para uma atividade física ao longo de duas horas e meia, por que não poderia fazer isso no dia a dia? Passei todo o percurso positiva, consegui lembrar de bons acontecimentos do passado e até apaguei minha birra com São Paulo enquanto passava por pontos icônicos da cidade no percurso (um dos melhores dessa vida, aliás). É um esporte com essa vantagem maravilhosa – você pode correr em qualquer canto e a atividade te conecta de imediato com os arredores. São Paulo consegue ficar encantadora, o Rio torna-se ainda mais apaixonante – apesar do calor, a vista de Ilha Bela do alto da montanha ocupa um canto especial da minha memória. Conheci a cidade do meu intercâmbio na França primeiro correndo, pois até o medo de se perder vai embora nessas ocasiões. Fui parar no meio da estrada sem querer no meio dessas “aventuras”, um pequeno detalhe.

O êxtase ao fim do percurso é surreal. Dessas coisas que nos tomam e mal conseguimos dar nome, sem exageros. No fim da meia-maratona eu ria sozinha e achava graça em tudo. A vida pode ter me deixado meio cética e, ainda assim, acredito muito na endorfina. Estranho notar como a exaustão física de um exercício proporciona êxtase. Isso explica a paixão de muito corredor pela manhã – acordar correndo te dá energia para enfrentar o dia.

Me lembro de ter tido essa sensibilidade apenas nas vezes em que estive no mar. Desde criança tenho nele o meu escape ideal. Perco a noção do tempo quando estou na água, e isso me ajuda a renovar as energias. Não por motivos espirituais. Estar no mar me passa a maior sensação de insignificância – dá dimensão do quão pequenos somos no meio desse mundão. Embora seja um paradoxo, essa certeza me alivia. É como se esvaziar de obrigações e expectativas, sentimentos que também se manifestam com facilidade ao correr.

Isto posto, elegi a corrida e o mar como meus escapes favoritos. Cada um à sua maneira me proporciona o prazer de não precisar me preocupar com nada mesmo estando só comigo mesma. Desconectar sem fugir de si, sabe? Me dando uma luz para entender que nunca é tarde para encontrar paz em meio a tanta inquietação interna. 

Compartilhe:

Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.