Desapegando coisas


Texto: Mareska Cruz // Arte: Livia Carvalho

De vez em quando (algumas vezes por ano) me dá uns cinco minutos e eu resolvo fazer a limpa no guarda-roupa. As primeiras vezes que fiz isso não foram tão bem sucedidas. Eu acabava separando pra doação as peças que realmente não gostava, mas a grande maioria ficava. Algumas coisas ainda com etiqueta, outras que nunca tinham sido usadas, acabavam ficando por causa da ideia de “um dia eu vou usar”, ou “vai que eu preciso de algo assim”. Engraçado que o dia de usar quase nunca chega, e se chegar na forma do “agora eu preciso de um vestido assim”, pode ter certeza de que não vai ser aquele que você vai querer usar.

Eventualmente criei coragem e realmente fiz a limpa do jeito que devia. E foi um negócio meio dolorido, mas não porque eu não queria me livrar daquelas roupas que nunca usaria ou que tinha usado uma vez só e nunca mais, mas porque não queria me livrar da ideia delas. Eu estava feliz no dia que comprei aquele vestido, aquela calça tinha passado por tantas coisas junto comigo, aquela blusa usei uma vez só e nunca mais porque o dia tinha sido péssimo. Era como se eu estivesse traindo minha história de vida dando aquelas roupas embora. O que não fazia sentido, porque no dia da compra do vestido eu estava feliz por outra coisa que não o vestido, e a calça não me servia mais e eu não usava há mais de seis meses, e aquele dia teria sido ruim independente da blusa que eu usasse.

Então doeu, mas tirei tudo isso do guarda-roupa. Nessa de desentulhar tudo que eu sabia que não servia mais/não pretendia usar/não ia usar mais, sem dar o cheat de “vai que”, acabei separando pra doação quase 70% do meu armário. Quando fiz isso com meus sapatos, tirando tudo que doía/apertava/machucava e ignorando a voz na minha cabeça falando “mas é bonito!” e “mas custou tão caro!”, acabei ficando com três pares de sapato. Minha mãe também fez uma versão mais light disso tudo no armário dela um tempo depois. Muita coisa saiu.

Não sei quando foi que começamos com essa coisa de associar objetos a momentos específicos, mas chegou num ponto em que a gente se sente meio traidora dando essas coisas embora. Acabamos mantendo tudo isso perto por uma sensação bizarra de dever. Como se a gente devesse alguma coisa pra tudo isso. Então guardamos tudo. Mesmo que o vestido nunca tenha sido usado e nem vá ser. Mesmo que a calça não sirva mais. Mesmo que o sapato machuque o pé toda vez que você usa.

(Mesmo que a amizade seja tóxica? Mesmo que o relacionamento tenha passado do prazo de validade?)

Tem uma coisa meio libertadora em conseguir se livrar disso tudo sem ficar arrumando desculpas ou justificativas. Não serve mais, ponto. Machuca, tchau. Foi por impulso, paciência. Não quero mais ficar acumulando coisas por apego.

Às vezes uma blusa é só uma blusa.

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