Deixe seu recado após o sinal


Texto: Paloma Engelke

No momento não posso atender, deixe seu recado.

Faz sete anos que eu não vejo minha mãe. Da última vez, eu nem era mãe de outra pessoa ainda. Minha mãe não foi ao meu casamento – eu não convidei -, nem viu minha filha nascer, e se eu dissesse que senti falta dela nesses momentos seria mentira. Eu senti falta dela antes disso, nas festas de dia das mães, reuniões escolares e aniversários que ela perdeu, ou quando eu precisava tanto de um colo e ela dizia que estava muito cansada e precisava dormir, ou quando eu não podia fazer coisas porque tinha que ficar em casa cuidando do meu irmão.

Eu sentia falta dela, e fazia tudo o que eu conseguia pensar para irritar. Eu fui uma adolescente intencionalmente difícil, e o que sobrou da nossa relação foi esfarelando pouco a pouco até que só sobrou raiva. Raiva e vazio e mágoa e estranheza.

Ainda assim, para minha surpresa, nos últimos tempos eu tenho pensado cada vez mais nela. Não é saudade que eu sinto, nem nenhuma espécie de amor incondicional que permaneceu adormecido no meu peito por todos esses anos. O que aconteceu foi só uma mudança interna de paradigma, um interruptor que foi desligado sabe-se lá como e pôs fim a todo o ressentimento que ainda estava aqui. Foi, talvez, a festa na escolinha da Sofia, que eu perdi porque a opção era perder a festa ou perder o emprego.

Partiu meu coração ver a minha filha tão chateada, partiu duplamente porque eu entendi o que ela estava sentindo, e partiu mais um pouco porque pela primeira vez eu vi as coisas pelos olhos da Dona Maria.

– A mamãe queria muito ter estado lá, meu amor – eu tentei explicar quando chegamos em casa. – Mas aconteceu um problema.

Ela não entendeu, é claro que ela não entendeu. Crianças de cinco anos não entendem assédio moral, luta de classes e opressão estrutural. Crianças de cinco anos não conseguem compreender que ficar no trabalho e não ir à festa dela não foi uma das decisões mais difíceis que eu já tomei, simplesmente porque não foi uma decisão. O mundo da Sofia é preto no branco e o que importa para ela é que eu estava em outro lugar e não lá. Onde eu estava? Para ela não interessa, assim como para mim um dia não interessou.

Foi só então que eu percebi que o tempo todo eu culpei minha mãe por ser mulher. Por ser mulher e não ter escolha na vida. Depois que meu pai escolheu não ser mais pai, ela não teve a chance de escolher não ser mãe – ela já era. Com duas bocas para alimentar, ela não pôde decidir trabalhar menos e dar um pouco mais de atenção para a gente – colocar comida na mesa era mais importante. E depois de várias jornadas intermináveis, ela simplesmente não tinha a opção de não estar cansada – ela era humana. Eu precisava do carinho, do colo, da compreensão dela; mas ela também precisava dos meus, e eu nunca tive a capacidade de compreender isso.

Talvez o nome do que eu sinto hoje seja remorso.

Muita coisa me passou pela cabeça enquanto o celular continuava pressionado com força contra o meu ouvido. Não faço ideia de quanto tempo se passou desde o bip, talvez não dê mais tempo de dizer nada. Talvez o tempo tenha passado. Talvez sempre seja tempo.

– Oi, mãe. É a Ana. Eu só queria saber como a senhora está. Se precisar de alguma coisa, me liga. Beijos.

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2.

Recado enviado.

 

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