Degringolar


Texto: Odhara Caroline Rodrigues

A bengala era a primeira coisa que eu conseguia ouvir.

Meu pai abriu a porta do meu quarto, sem mais cerimônias do que quando eu tinha 8 anos, que é igual a nenhuma; só que agora eu tenho 36. A vergonha de ser empurrada de novo pra impotência que eu sentia naquela época me fazia chorar. Hoje me dá raiva. E sede.

Ele foi mancando até a janela e a abriu. O sol de sábado me cegou.

— Sai desse quarto, Clarissa — ele mandou. Se aproximou da minha cama e usou a bengala pra fechar o meu laptop. A raiva e a sede. A sede ganhou.

Sete meses antes, o que eu sentia era a tristeza amarrando minhas mãos. Um acidente finalmente tinha acontecido. Eu fora buscar meu pai no hospital. O médico, com a repreensão velada nos olhos, comentou que seria muito difícil que ele continuasse morando sozinho, tão idoso, ainda mais agora — recuperação de fratura na bacia era coisa séria.

O cheiro da naftalina que ele insistia em colocar nos bolsos de todos os paletós não demorou nem um dia pra infestar o meu quarto de hóspedes.

 

Lívia atendeu no segundo toque. Dispensei os cumprimentos:

— Ele precisa sair daqui.

— Eu sei, Tata — minha irmã suspirou, do outro lado do oceano. Mesmo com tanto mar separando a gente, eu sabia que ela estava roendo as unhas naquele exato momento. — Mas é temporário, você sabe.

— Temporário. Ele já tá aqui há mais de seis meses.

— Eu sei. Mas enquanto eu estiver aqui, não tem como a gente pagar isso. É só mais um ano até a minha pesquisa acabar.

— Um ano e três meses.

— Eu sei, Clarissa, eu sei.

— É muito fácil pra você saber de tudo da Inglaterra! — Eu gritei. Consegui ouvi-la prendendo a respiração.

A relação entre ela e meu pai nunca fora tão conturbada quanto a minha. Lívia era mais nova, mais extrovertida. Eu era quieta demais pro meu pai. Não costumava estar do lado dele durante as festas constantes que aconteciam em casa — preferia ficar quieta na sala, vendo alguma coisa na televisão.  Mas ele sempre a tirava da tomada quando recebíamos alguma visita.

— Desculpa, Tata.

Eu desliguei o telefone.

 

Eu me conformei: não terminaria de ver a minha temporada naquele fim de semana. Troquei de roupa, escovei os dentes e mandei uma mensagem pra Andréa: “Me encontra no bar?”. Ela concordou imediatamente.

Quando Andréa chegou, eu já estava sentada à minha mesa habitual, com um copo de vodka na mão. O morango estava tão doce que apenas a calma que se instaurava em meu peito me fazia lembrar que havia álcool naquele copo.

— Oi, Déa. Não quer alguma coisa?

— Não. Ainda não são nem seis da tarde, Clarissa. E eu ainda tô de ressaca depois do happy hour de ontem — ela respondeu, puxando uma cadeira e se sentando na minha frente .

— Eu ainda estou com um pouco de dor de cabeça também — concordei, tirando o óculos de sol.

— Então por que você está bebendo? Tudo bem, já sei — ela suspira quando percebe a minha expressão. — Seu pai.

Déa é a melhor amiga que eu já tive. Nós nos conhecemos quando ainda éramos estagiárias na empresa em que eu trabalho até hoje. Da nossa turma, só nós duas continuamos lá.

— Tá todo mundo preocupado com você, Clarissa — ela começa com o tom de voz assertivo que só usa quando vai me dar bronca. Tough love, baby. — Você tem chegado atrasada no trabalho. Não tem rendido tanto. O Daniel pode ser um chefe bonzinho, mas ele tá perdendo a paciência, já perdeu as contas das vezes em que você chegou de ressaca.

— Ué, agora você é RH? A gente não devia estar tendo essa conversa no trabalho, então? — Eu a interrompo, ergo a voz.

Andrea ergue as sobrancelhas pra mim. Eu sei que ela está pensando o mesmo que eu. Eu nunca fui dada a rompantes de agressividade

— Eu tenho que me preocupar com o fato de você estar bebendo um litro de vodka a essa hora, Clarissa? — Ela pergunta cruzando os braços, a ameaça nas sobrancelhas.

— Você nunca se preocupou de me ver bebendo. Inclusive foi você quem me ensinou a beber.

— Na época você bebia pra se soltar. Te dava prazer! — ela exclama, afastando a cadeira. — Você gostava. Fazia você esquecer um pouco da sua timidez.

— Eu tenho coisas mais pesadas pra esquecer agora.

Andréa não conseguia me encarar.

— Eu sei, tá legal. —  Ela suspira. — A sua relação com seu pai é uma droga, mas você tem 36 anos. Você não pode deixar ele te fazer regredir pros 8.

— É, mas é como ele faz eu me sentir!

— Porque você deixa, Clarissa! Porra, você não amadureceu nada?

— Claro que sim. — Eu consigo ouvir uma ironia que não esperava na minha voz. — Agora eu posso beber pra lidar com isso.

Ela me olha de um jeito que dói. Porque é o mesmo jeito que meu pai sempre olha pra mim.

 

Eu não demoro mais do que o de costume pra encaixar a chave e conseguir abrir a porta, embora eu esteja tão bêbada. Mas não bêbada o suficiente pra passar mais uma noite com o meu pai. Eu precisava de pelo menos mais algumas cervejas pra aguentá-lo.

Mas, quando abri a geladeira, ela estava vazia. Me volto para o armário e ouço a bengala do meu pai.

— Tá procurando a bebida? Joguei todo o álcool dessa casa fora — ele sorri, satisfeito.

— O quê? — Eu não olho pra ele. Continuo procurando nas prateleiras mais baixas.

— Isso mesmo que você ouviu, garota. Joguei fora.

— Com que direito você fez isso? — Eu levanto e o encaro. Ele não é mais tão alto. Eu me pergunto como já tive medo dele um dia. Como ele costumava me apavorar sempre que tirava o cinto e partia pra cima de mim.

— Com o direito de ser seu pai.

— Essa casa é minha! Você tá na minha casa! — Eu cuspo em meio aos gritos. As bordas do mundo começaram a ficar vermelhas.

— E você continua sendo minha filha! — Meu pai continua tão arrogante quanto antes. Não importa que agora ele precise de uma begala pra andar, não importa que ele viva às minhas custas. Ele ainda acha que é o homem da casa. — E eu tô cansado de você chegando em casa fedendo igual um gambá. Eu sabia que você não ia virar nada, mesmo, você nunca teve nem uma partezinha do talento da Lívia. Sempre se escondendo por aí! Você fazia isso quando era criança e continua fazendo hoje, não consegue nem abrir a boca pra se defender, não é à toa que tá sozinha até hoje. Eu sabia que esse ia ser seu fim, mesmo, mas não conseguia imaginar que além de continuar uma mosca morta você ainda ia virar uma bebum…

— Pelo menos eu não vivo às custas de ninguém! Eu pago meu apartamento, eu pago as minhas contas, eu pago inclusive essa bebida que você jogou fora! — Eu agarro o copo que estava em cima da geladeira e jogo na direção dele. Meu pai parte pra cima de mim.

— Você é uma ingrata, Clarissa! Bêbada e ingrata! Eu sou seu pai!

— Você é um parasita!

Ele levanta e bengala, mas erra o alvo: a madeira atinge a geladeira em vez de mim. Eu assisto ele tomando impulso de novo. Não é em câmera lenta, como eu sempre imaginei que esses momentos seriam. Eu o empurro contra a parede, mas ele bate com o quadril no fogão e cai, pesado, no chão.

A sua bengala se parte e ele urra de dor. O seu quadril forma um ângulo esquisito com o tronco e eu fico mais sóbria do que me sentia há meses.

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