De onde eu vim, pra onde eu vou


A raiz é a base da planta. Aquilo que a sustenta, nutre e faz crescer. Não por acaso, acredito que família tem tudo a ver com isso.

Eu cresci numa família muito unida, cheia de gente, de encontros, de risadas e de brigas também, porque faz parte. E família, pra nós, não é só a nuclear, aqueles que moram na mesma casa. Quando se fala em família lá a gente pensa também nos nossos avós, nas tias e tios, padrinhos, primos. Nas histórias das bisas. Nas mães de leite. Nos parentes de segundo, terceiro e quarto grau. Tanto do lado paterno quanto do lado materno. A árvore genealógica vai longe e todos são considerados. É até engraçado, porque tem sempre um primo pra conhecer, uma tia que ainda não ouvi falar, alguém que conhece meus pais e gosta de mim da mesma forma, mesmo tendo me visto pela primeira vez agorinha mesmo.

Nas últimas férias de fim de ano, por exemplo. Estávamos no sítio da minha avó paterna quando decidimos ir com mais vários parentes numa cachoeira ali perto. Éramos meu marido, minha filha, meu pai, minhas primas e tias com quem convivo com mais frequência, primos e primas de segundo e terceiro grau e pessoas das quais eu não me lembrava – isso sem contar as crianças que eu nem sabia que existiam. Por volta de trinta pessoas, pra resumir. Chegamos e, enquanto uns iam desembalando os lanches, outros foram explorar o lugar e mais alguns ficaram por ali, tentando entender quem era quem e de onde vinha o emaranhado de laços que unia cada um de nós. Panelinhas foram sendo formadas, crianças se acostumaram com a água gelada, muitas frases de “como você cresceu”, “lembro de você desse tamanho” (colocando a mão ao lado do quadril), “mas você é mesmo a cara da sua mãe, menina!”. Ligaram o som. Alguém levou uma churrasqueira portátil e panelas. O lugar era praticamente nosso e não demorou nada para que estivéssemos todos enturmados. Podia muito bem ser um quintal. Conversas infinitas, risadas, cerveja. Muitas fotos, forró, promessas de mais visitas durante o ano, quem sabe no carnaval, não vamos perder contato, me adiciona no Facebook.

Uma família como outra qualquer.

Olhando pros que estão mais perto, na presença contínua de um ano todo, na mesma cidade ou a mais de mil quilômetros, digo que ter uma família grande é muito bom. Eles são as pessoas que se preocupam e acompanham os passos de todos os envolvidos. Que visitam no domingo ou nas férias, que mandam mensagem de bom dia no grupo do Whatsapp, que ligam pra contar sobre os últimos acontecidos, sejam bons ou ruins, não importa se for sobre si, mas principalmente de outros integrantes também. Quando acontece isso é porque querem opiniões ou só oração pra dar conta do que quer que seja. Ainda têm aquelas conversas em que um fato é colocado na mesa e todos podem opinar, a velha discussão de relação, mas com mais pitacos, sendo bem sincera. Que também é a mesma família que larga o expediente no trabalho pra acompanhar um luto, pra dar força, colo, comida. Que ri dos próprios defeitos. Que não mede esforços pra ajudar e fazer bem. Que sabem dos seus tropeços e enxergam sua evolução.

Por isso acredito que eles são parte fundamental do lugar de onde eu vim e para onde posso ir quando a coisa aperta. Não é o lugar perfeito – até porque essa coisa de perfeição não existe nem na teoria, que dirá dentro de uma família, não é mesmo? Existem desentendimentos, picuinhas, estranhamentos e aquela boa cara de paisagem vez ou outra. Faz parte.

Como toda árvore, a gente balança conforme o vento.

E segue a vida, entrando e saindo das estações aprendendo sobre paciência, tempo, amor e resiliência.

Ah, família. Essa primeira instituição que nem sempre entendemos ou até mesmo concordamos, mas que é a referência primeira de construção de pensamentos, sentimentos e lembranças.  Para que nos conheçamos e possamos fazer nossas próprias escolhas. E entender que não necessariamente nascemos para ser como todos eles. Raiz pode mesmo não ser o nosso lugar nessa floresta, mas não deixa de ser reconfortante saber que mesmo sendo folha verde, livre e que voa no outono, é o desenho deles que compõe a minhas veias.

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