De caixas de lápis e vivências escolares


Muita gente acredita que literatura serve apenas como escape. Ler é ir para outro lugar, viver grandes aventuras, desejando estar junto com os personagens ou, às vezes, agradecendo por viver em um mundo menos perigoso. Mas literatura não é só fuga; é também identificação. Se não, o que explicaria o sucesso de tantos livros que contam a história de adolescentes comuns, de gente como a gente? Em alguns momentos, lemos para nos perder; em outros, buscamos nos encontrar.

Se a busca por identificação no sentido psicológico pode ser, na medida do possível, universal, algumas referência simples e cotidianas costumam ser mais restritas geograficamente. Por isso – mas não só por isso – gosto muito de histórias brasileiras.

É reconfortante encontrar um cotidiano mais parecido com o meu em uma narrativa. Gosto bastante de ler histórias sobre adolescentes e acabo conhecendo melhor as americanas, mas às vezes cansa ler sobre uma realidade em que pessoas de dezesseis anos dirigem, há líderes de torcida na escola e há clubes para tudo, do time de basquete ao de debate.

De vez em quando, as referências à minha realidade são pequenas e são muito mais aspectos curiosos que identificação. Por exemplo, em “Meus 15 anos”, da Luiza Trigo, a protagonista tem aula de projetos na escola, assim como eu tinha. A minha realidade paulistana é diferente da dela, uma carioca riquíssima – ela fez uma festa no Copacabana Palace, né… Mas isso é outra coisa legal de ler literatura brasileira: às vezes a gente se identifica, em outras a gente percebe melhor aspectos regionais. Eu, por exemplo, conheço pouquíssimo da geografia dos Estados Unidos e se não for uma das cidades mais conhecidas, mal vou perceber onde a história se passa. Mas quando é no Brasil, a gente sabe, vê as gírias e diferenças culturais e sociais mais claramente.

Outro exemplo de identificação pequena é quando li “Mãos de cavalo”, do Daniel Galera, e o protagonista ganha dos pais uma caixa de lápis Caran D’Ache que eles compraram no exterior, porque era isso que se estava dando na época – eu não sei se o narrador chega a dizer explicitamente isso, mas é a interpretação que ficou para mim. E assim, em uma simples frase, eu me lembro de que a minha experiência não é única. Que uma garota de classe média de São Paulo tem sim muito em comum com um garoto de Porto Alegre – embora nesse caso quem tenha me dado os lápis foi a minha tia.

Por último, quero falar de uma identificação que não é plenamente minha, mas é a que mais traduziu minha realidade escolar. “Para quando formos melhores”, da Celeste Antunes, retrata um grupo de amigos em meio ao seu cotidiano de escola, bares e conversas nas casas uns dos outros. A parte escolar não é muito aprofundada, mas desde o início eu sabia: Celeste Antunes estava falando de alunos daquelas escolas construtivistas, meio intelectuais, meio de esquerda, com alunos de quinze anos que discutem Dostoiévski no bar com normalidade. Eu estudei em uma dessas escolas, eu fui colega em grande parte da minha vida, de certa forma, desses personagens; não posso dizer que sou um deles porque sempre fiquei um pouco à margem na escola, em grupinhos menores e menos alternativos, por assim dizer, mas compartilho de muitas de suas referências. Foi até um pouco nostálgico ler o livro agora, três anos depois de sair desse universo, como se estivesse me reencontrando com meus colegas e, ao mesmo tempo, percebendo que tínhamos muito mais em comum do que eu acreditava.

Acho que não preciso dizer que representação, de qualquer tipo, importa, né? Pode ser que nenhum livro se aproxime totalmente da minha realidade, da minha experiência, mas aos poucos eu vou somando as referências. Posso não ser, de fato, o arroz e feijão que como quase todo dia ou a caixa de lápis que ganhei da minha tia, mas eles, os lugares aonde vou, as pessoas com quem convivo também fazem parte do que sou.

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Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.