Das raízes pessoais às origens de personagens


A vida de um leitor ávido, assim como eu, é cheia de infinitas narrativas e universos. Através dos livros, podemos ser transportados para realidades alternativas à nossa e imaginar mundos repletos de possibilidades. As histórias dos personagens que acompanhamos acabam se tornando, boa parte das vezes, uma extensão da nossa.

Quando eu tinha 13 anos e descobri Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, Elizabeth Bennet imediatamente se tornou meu alter-ego. Desde o primeiro momento que li sobre ela, formei uma conexão com a personagem; não só com sua aparência física, mas com sua personalidade. Senti como se Jane Austen, mais de dois séculos atrás, tivesse capturado quem eu era e colocado em formato escrito.

São diversas as vezes em que um leitor(a) se identifica com os personagens de uma história que está lendo. Se para nós, leitores, tal fato acontece com frequência, em muitos autores essa transposição e projeção pessoal é praticamente natural e fluída.

Quando o assunto é ficção, essa transferência de bagagens pessoais, características físicas e traços de personalidade e comportamento são encontrados nas mais variadas formas. Tomemos Stephen King como exemplo. Ele é conhecido por incorporar muitos de seus próprios medos em suas histórias e nas trajetórias de seus personagens. Fernando Pessoa, com seus alter-egos, era capaz de escrever de maneiras completamente diferentes, mas sem deixar de compor em cada verso uma parte de quem ele era.

As raízes de cada autor, isto é, seu background pessoal, acabam influenciando diretamente e indiretamente, na narrativa e construção dos personagens de suas histórias. J. K. Rowling mencionou em diversas reportagens e documentários como sua vivência, raízes familiares e personalidade refletem, não apenas em Harry Potter, mas também, em outros personagens.

Sempre achei curioso entender como esse processo criativo acontece. Continuei imaginando por muitos anos, até decidir entrar no mundo da fantasia e escrever meus próprios personagens. No ato da criação, os autores acabam formulando mais do que universos novos. Acabam por perceber que, no baú de recordações que tece nossas raízes como seres humanos, tudo a nossa volta nos transforma, nos torna novo, verdadeiramente únicos.

E assim também se formam os personagens. Cada um tem uma lista de definições que determinam quem e porque são da maneira que são. E é a partir dessas características que percebemos o quanto essas pessoas imaginárias carregam um pouquinho de nós em sua composição.

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