Da vez em que eu disse que queria ser pintora


Texto: Andressa Lima

Se você é de humanas, já deve ter passado pela experiência de projetar uma visão fantasiosa de um sucesso que tarda, tarda e não vem. E, depois de nutrir dúvidas sobre um futuro profissional decente, deve ter soltado em algum momento da sua vida a famigerada frase “vou vender minha arte na Paulista” – mesmo que só de brincadeira. Essa frase repleta de ironia da vida, muitas vezes, parece esconder um quê de verdade. Ela parece guardar aquele nosso dom artístico reprimido e mal cultivado que as tias juravam que daria em algo. “Olha como essa menina desenha bem”, diziam elas. Mas às vezes a profecia vem trocada, como foi no meu caso.

Me lembro de uma vez em que perguntaram para as crianças na igreja – eu era uma delas – o que cada uma queria ser quando crescesse. Eu, toda orgulhosa dos meus desenhos super elogiados pelas professoras do primário, fui logo dizendo: “Quando eu crescer eu quero ser pintora”. Uma coleguinha havia dito que queria ser veterinária e outra que queria ser professora e, por ironia do destino, a moça da igreja quis ilustrar nossos futuros na profissão que havíamos escolhido com toda a sabedoria dos 7 anos de idade. A frase foi meio assim: “A Luana quer ser veterinária, vai cuidar dos animais, dar injeção, curar os bichinhos. A Bia quer ser professora, vai ensinar as crianças a escrever e a ler. Já a Andressa quer ser pintora; ela vai escolher as tintas, pintar as paredes das casas, tomar cuidado para não manchar o chão…” E assim ela continuou o discurso, pisando nos meus sonhos e, quem sabe, nos de outras crianças ali.

Naquele dia eu fui para casa e nem devo ter pensado muito no assunto. Afinal, aos 7 anos o que a gente quer ser quando crescer muda a cada semana e as frustrações não costumam durar muito mais que isso.

Mas uns anos depois, acho que por volta dos 15, eu me lembro de ficar um bom tempo pensando em como aquele ser humano pôde ser capaz restringir o significado da palavra “pintora”. Na minha cabeça de adolescente aquela fala, que eu de alguma forma preservei na memória, era a prova viva de como as pessoas eram sem noção.

Hoje, já na casa dos 20, eu vejo essa cena como um daqueles episódios em que a vida nos dá uma bofetada. Lembrar do ocorrido emendando um “Você vai querer mesmo ir pra Paulista vender sua arte, menina?” me faz pensar nesse preconceito nutrido por uma profissão que é capaz de dar vazão à capacidade criativa do ser humano.

É triste saber que esse pensamento que precariza a arte está cada vez mais presente na nossa sociedade. Seja na PEC do Ensino Médio – que em sua primeira versão excluía por completo a disciplina da grade e que agora torna a matéria obrigatória apenas para o ensino infantil – ou no projeto higienista em São Paulo, presente na lei que multa grafiteiros – a arte tem sido constantemente colocada em xeque.

Nas frases soltas ao acaso, vemos o quanto as pessoas ignoram que a arte tenha uma função prática na sociedade, além da estética. E, por isso, se eu pergunto o que alguém quer ser quando crescer, a resposta “ser pintora”, será interpretada como alguém que quer pintar paredes, já que essa é a única forma de contribuir socialmente.

A menina de 7 anos que eu era há tempos atrás foi desencorajada por um comentário. Mas se fosse hoje, confesso que essa menina estaria confusa. Afinal, de qual lado dos que pintam paredes ela deveria estar: dos que usam spray ou daqueles com tinta cinza?

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