Culpados ou distrações?


Texto: Sofia Soter

Um assassinato, um detetive, várias pistas, uma lista de suspeitos – incluindo aquele, o mais suspeito de todos, o que tem um motivo forte para cometer o crime, foi visto fazendo coisas perigosas e tem um histórico de violência; o que, obviamente, não é de fato o assassino, senão o mistério não teria nenhuma graça. Esse tipo de personagem, feito para distrair os leitores para que o verdadeiro culpado seja revelado mais perto do final, é chamado de red herring. E é extremamente comum (quase necessário) em narrativas que envolvem algum tipo de mistério – de séries policiais a Harry Potter.

Quando as editoras aqui da Pólen me sugeriram essa pauta, a primeira coisa que me veio à mente foi Pretty Little Liars, tão cheia de red herrings que uma página no TV Tropes declara que poderia se chamar Redherring: The Series. Na tentativa de resolver cada um dos mistérios que se colocam à nossa frente, todos os personagens são suspeitos em algum momento – e, na realidade, quase todos são culpados de alguma coisa, apesar de não exatamente do que foram acusados. Pessoalmente, esse é meu tipo favorito de red herring: aquele que é culpado, que é terrível, que realmente fez algo que não devia e está escondendo um segredo, só, bem, não é aquele. É meu tipo favorito porque a aparência suspeita não parece criada falsamente só para nossa distração, mas acaba fazendo algum sentido narrativo e na construção de personagens às vezes perturbadores, às vezes engraçados (é comum que a revelação da verdade sobre red herrings seja feita com algum toque de humor).

O problema dos red herrings é o seguinte: todo mundo que tem o hábito de consumir narrativas de mistério já sabe que eles são inevitáveis, já identifica o formato, já sabe que o maior suspeito que aparece mais para o começo não pode ser o culpado, porque ainda tem muito livro para ler ou porque o filme ainda está longe do final. Com bom conhecimento das armadilhas desse tipo de narrativa, é fácil saber quem é um red herring e quem não é, é fácil apontar para o menos suspeito dos suspeitos e identificá-lo como o culpado. Por isso, escritores dessas narrativas frequentemente tentam manipular e subverter essas fórmulas, tentando estar à frente do leitor/espectador, tentando gerar surpresa.

Isso ocorre de alguns modos diferentes: revelando que o culpado é alguém não presente no rol dos suspeitos (possivelmente algum personagem do lado “bom”, ou até mesmo o protagonista), desconsiderando rapidamente um aparente red herring que no final é o verdadeiro culpado, identificando logo o culpado e focando o resto do mistério em comos e porquês… Em formatos seriados (seja em séries ou livros), a recorrência de red herrings pode ser ainda mais prejudicial ao envolvimento do leitor, e por isso o humor é um recurso comum nesses casos – em Desventuras em série, o autor usa anagramas e descrições para indicar que alguns personagens são red herrings; no desenho animado O pequeno Scooby-Doo, uma piada recorrente é que Fred sempre acha que o culpado é um personagem chamado, isso mesmo, Red Herring (por sinal, só entendi essa piada hoje, porque o nome em português é Ruivo Herring e, apesar de eu achar um nome esquisito à beça, nunca tinha me perguntado seu motivo).

Mesmo em Harry Potter, J.K. Rowling brinca constantemente com os maiores red herrings dos livros: Severus Snape e Draco Malfoy. No primeiro livro, Harry tem certeza que Snape está atrás da Pedra Filosofal, ajudando Voldemort; no segundo, que Draco é o responsável por abrir a Câmara Secreta; no terceiro, que Snape está envolvido com toda a confusão ao redor de Sirius, e que está fazendo mal a Remus (ele de fato está bastante envolvido, mas não como Harry imagina); no quarto, os suspeitos mudam um pouco, uma lista de possíveis culpados por colocar o nome de Harry no Cálice de Fogo (e por tudo que se segue a isso); a partir do quinto, o formato do mistério muda bastante e Snape e Draco passam de red herrings a responsáveis de fato (mesmo que não da forma simplista com que Harry percebe a situação), surpreendendo os leitores, que já estavam acostumados a desmerecer as suspeitas implicantes de Harry.

Como a maioria das tropes, o uso narrativo de red herrings pode ser muito irritante ou muito interessante para os leitores – também como a maioria das tropes, o que importa para fazer essa distinção é o autor não subestimar o conhecimento e a inteligência de seus leitores.

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Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.