Culpada é a Mãe


Texto: Lara Matos

Sobre o papel social

Não sou mãe ainda, embora este seja um dos meus desejos futuros. Dessa forma, este texto é mais uma peça opinativa do que qualquer outra coisa, falando sobre os principais pontos que me incomodam sobre este tema. Claro que ouvi a opinião de muitas mães, inclusive da minha, para falar sobre coisas que as incomodam em relação ao espaço da maternidade parecer excludente de outras funções na vida, como mulher sexualmente ativa e profissional, por exemplo.

Para começar, essa polarização de “paternidade” e “maternidade”, muito errada e desnecessária. Sabe aquilo que a gente escuta muito sobre “os filhos são mais íntimos da mãe”, “isso é coisa pra mãe fazer” e etc.? Todas essas frases trazem uma carga imensa daquele machismo que santifica as mães e as põe num pedestal para poder imobilizá-las na função. E, claro, sobrecarregá-las com a educação dos filhos.

Se você pensar um pouco, há irmãos que cuidam e educam crianças, suas irmãs. Tios, avós, primos também o fazem. Pessoas que sequer têm parentesco mútuo. E aí? Isso diminui em algo os laços entre elas? O cuidado com uma criança é sempre o mesmo. A intimidade, também. “Mas só mãe amamenta”, ok, mas há mães que não amamentam (por impossibilidade física mesmo) e isso não as torna menos mães, apesar de haver textos lamentáveis imputando mais culpa ainda. Alimentar (atividade que mais é usada para “santificar” a maternidade de modo distorcido) uma criança, no fim, é um ato íntimo de cuidado e amor por parte de qualquer pessoa, não apenas da mãe.

Segundo ponto: realmente não sei qual é a pior posição: ser “mãe solteira” (detesto esse termo) julgada de todos os lados pela sociedade, ou estar em um relacionamento de moldes tradicionais em que o pai, quando não colabora em nada com a edução da criança, ainda de faz cobranças absurdas, como a clássica pelo “silêncio das crianças” quando ele está em casa (crianças fazem barulho, são crianças), se ele se incomoda, então que tente discipliná-las. Ou então aquele pai que ajuda com os filhos, tão bonzinho, né? Não, pois a responsabilidade pela prole deve ser igualmente repartida pelo casal.

Educar uma criança sozinha, por escolha própria ou não, é algo que gera muitos julgamentos: “mas você é mãe, não deveria sair com as amigas à noite”; “você deveria cuidar só de seu filho, ele é prioridade, não deveria estar num relacionamento amoroso”; “você não acha que trabalha demais? seu filho é órfão de mãe viva”, são só amostras das frases absurdas que as mães ouvidas relataram. A retirada do direito pessoal de ser algo além de mãe foi algo muito citado pelas mulheres que colaboraram. Inclusive o fato de alguns filhos, já crescidos, assumirem papéis de juízes severos da conduta das mães, que tentam desfrutar de outros aspectos da vida além da maternidade e recaem em censuras injustas.

Sabem por que isso é ainda pior? Todo ano, temos as irritantes postagens de dias dos pais em que as exceções (assim, em negrito e sublinhado mesmo) de homens que tomaram a responsabilidade total de cuidar dos filhos para si e são vistos como santos na terra sem falhas, livres de quaisquer julgamentos pertinentes à função, de matéria no link (fosse uma mulher: “o que essa vagaba tinha na cabeça o engravidar sem ter terminado a faculdade”, né). Este pai geralmente é presentado como uma pobre vítima do destino ou de uma “mulher desnaturada”, sempre. Qualquer ressalva sobre o modo de educar os filhos feita por alguém sempre ganha a censuras do tipo: “mas ele tá tentando, é um pai sozinho, é difícil, é muito sofrimento”. Para milhões de mães que educam crianças sozinhas também é muito difícil, e elas não têm nem ¼ dessa condescendência toda.

É verdade que há PESSOAS, em geral, sem qualquer desejo ou inclinação para o nível de envolvimento que educar outro ser humano traz consigo, mas o julgamento, claro, cai sobre as mães, as mulheres, que antes de aprenderem a falar são presenteadas com bonecas, sugerindo um “treino” para a esperada maternidade. Já um homem que diz não saber ser pai ou que é um daqueles “pais quando dá” recebe, quando não a tolerância social, até mesmo a benevolência das pessoas por estar sendo, afinal, um cara sincero. Enfim, a mãe da criança foi engravidar dele porque quis, não é mesmo?

A culpa é sempre da mulher.

Sobre o corpo

O corpo de uma gestante é menos dela porque dentro deste corpo, além do feto, devem caber também o Estado, os pitacos dos parentes de ambos os lados (o pai pode ser um cretino, mas a família dele vem opinar sem falta) e toda concepção moral da sociedade acerca da maternidade. Haja expansividade uterina. E nem vou falar do que deveria ser direito universal e gratuito para e pelas mulheres, o aborto seguro. Não, aqui vou falar só da gravidez.

Fora as coisas cientificamente prejudiciais, proibidas de verdade durante a gestação, como cigarro, bebidas alcoólicas e entorpecentes, somos bombardeadas com crendices absurdas sobre o que certas atividades ou alimentos fariam com o desenvolvimento da criança em gestação. Não pode comer melancia. Se não estiver conseguindo amamentar direito, tem que fazer massagens dolorosas e tomar cerveja preta para dar mais leite, mas não pode amamentar mostrando os seios em público. Comida com pimenta nem pensar.

Abordar a sexualidade nesse período, principalmente nos meses de gravidez avançada, é um tabu com um status próximo de parafilia. Santa Maria mãe de Deus.

Minha mãe conta um episódio anedótico de que faltando uns quatro meses de ter a primeira filha, quiseram colocá-la em “repouso absoluto”. Mamãe, pensando, “repouso absoluto pra mim é morte”, saiu de casa e só voltou após andar por seis horas, com muitas bolhas nos pés e nenhuma satisfação para dar. Como deveria ser para todas nós.

Sobre trabalho

Ouvi de várias mães a afirmativa de que mal podiam esperar o fim da licença maternidade pós-nascimentos para voltarem ao trabalho, pois sentiam falta do contexto e da atmosfera desse ambiente. É meio que obrigatório o estereótipo das mães que choram e sentem-se culpadas ao deixar seus filhos aos cuidados de outras pessoas quando voltam à rotina laboral. Mas nem sempre é assim, e na verdade, é melhor que não seja. Acompanhar o desenvolvimento de uma criança, lhe dar amor e atenção nada tem a ver com anulação das próprias faculdades pessoais.

Essas declarações demonstraram duas coisas: a consciência de que quanto mais independente for a orientação de educação de seu filho, mais emocionalmente saudável espera-se que ele seja, já que desde pequeno será ensinado a respeitar o espaço da materno em outras atividades. E outra: o fato de pensar em uma carreira não faz de você uma desalmada, como muitas vezes a “indústria da culpa materna” quer nos fazer pensar. Pelo contrário, até auxilia a criança a ter mais laços afetivos saudáveis e idealizar menos a figura materna.

É difícil pensar num mundo sem tantas amarras para a função de cuidar de uma criança. Mas com esse textos os links salvadores dispersos por ele, tentei expor os principais aspectos de ter diante de si a responsabilidade de educar outro ser humano que me foram relatados.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.