Cresci com livros debaixo do braço


Texto: Ana Luísa // Arte: Raquel Thomé

Não tenho como não pensar com carinho na minha infância quando me lembro dela através dos livros que eu li. E até dos que li antes de ler. Eu explico: a vontade de aprender a juntar as letrinhas era tanta que eu implorei que me ensinassem quando eu tinha 4 anos – enquanto isso eu passava o dedinho pelas letras e inventava o que poderia estar escrito com tanta propriedade que enganei muita gente grande (isso é o que me contam).

Outra coisa que já me contaram é que um dos meus tios ficou chocado quando, em um feriado de família numa casa de praia, me encontrou várias vezes em algum cantinho mergulhada em um livrão. Eu tinha 5 anos e ele duvidou que eu estava lendo de verdade.

Em relação aos livros na minha primeira infância, ouço muito falar dessas duas histórias que contei acima. Acho que um marco da importância que a literatura teria durante toda a minha vida veio no dia em que eu fiz 7 anos: eu estava louca para ganhar um par de patins. Ganhei. Minha tia chegou alegre com aquela caixona. Quis calçar os patins na hora, mesmo dentro do apartamento da minha avó. Demoraram uns 20 minutos até colocarem os patins nos meus pés (com todos aqueles lacres) e afivelar as cotoveleiras e joelheiras. Eu tinha acabado de levantar, toda paramentada, e minha tia avó apareceu com outro presente: um kit com uns 8 livrinhos. De repente não existia mais um par de patins. Me lembro de estar sentada no chão, com as perninhas abertas, os patins nos pés e completamente encantada com os livros. Li todos ali mesmo. Sim, no meio da comemoração do meu aniversário.

Depois disso a vida e a literatura foram acontecendo de mãos dadas. Lembro de ficar encantada com as estantes das casas das pessoas; da coleção de livros da Disney que era dos meus primos e meus padrinhos me deram porque passei o feriado na casa deles sem conseguir largar; lembro do momento exato em que ganhei meu primeiro Harry Potter; de criar coragem de pedir para a professora me emprestar um livro que eu tinha visto na mesa dela e parecia muito legal; de ser uma das crianças que mais alugava livro na biblioteca da escola; lembro da coleção Vaga-lume; da série dos Karas… Foi assim que eu cresci. Tenho uma série de livros infantis e infanto-juvenis no “currículo” e, confesso, ao mesmo tempo que tenho vontade de reler alguns, morro de medo. Guardo os “favoritinhos” com tanto carinho na minha memória que não gosto muito da ideia de correr o risco de reler e descobrir que nunca foi tudo aquilo. Dizem por aí que quando a gente é criança tudo parece maior, né? Então melhor deixar essas histórias tão queridas quietinhas e preservadas no baú da nostalgia – e nunca esquecer que foi um pouquinho da cada uma delas que me trouxe até aqui.

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.

  • Ana Flávia Sousa Silva

    Péra, caiu um cisco. haha
    Como não me identificar com sua histórica literária?
    Os livros sempre foram os melhores presentes, companhias e refúgio.

    Ainda bem que a pequena Analu te fez ser assim, tão incrível. <33