Creed: Nascido para Lutar, de Ryan Coogler


Texto: Lidyanne Aquino

Creed: Nascido para Lutar (Creed, 2015, direção de Ryan Coogler)
Estreia no Brasil: 14/01/2015

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Houve um momento em que fiquei implicante com filmes. Sabe aquela fase da adolescência, quando começamos a assistir filmes mais sérios e nos sentimos pessoas muito cultas? Quando não dá para admitir que gostou daquele filme bobinho da sessão da tarde porque pode pegar mal? Então. Sei, tem gente que passa batido, mas lá se foram muitos anos desprezando qualquer filme com ar comercial demais. Até o momento em que entrei na faculdade e passei a cobrir filmes para o site da instituição. Meu amigo dizia “quem gosta de cinema tem que ver de tudo, sem ressalvas”. Ele tinha razão. Passei a cobrir de comédia pastelão a dramas pesados, evitando apenas terror pois infelizmente não consigo, risos. Torci o nariz legal para Creed: Nascido para Lutar, dirigido por Ryan Coogler. Não sou geração UFC, bem pouco chegada a lutas.

Acontece de Creed ser um filme franco e possível para quem não entende nada (e nem vê atrativos) de lutas. Adonis (Michael B. Jordan) é o típico “personagem central acessório”, um clichê clássico do garoto que é fruto de um relacionamento extraconjugal de Apollo Creed e que não quer criar seu nome em cima da fama do pai. Um jovem comum e um pouco esquentadinho com um objetivo: tornar-se lutador. E mesmo querendo esconder sua origem, usa o nome do pai como apelo para conseguir que o saudoso Rocky Balboa (Sylvester Stallone que sim, vai te deixar com os olhos marejando) o treine. Mesmo estando à margem – dada sua origem, Adonis vive entre um reformatório e outro, até o dia em que Mary Anne (Phylicia Rashad) o resgata, adota, e cria como se fosse filho – em nenhum momento se faz de vítima.

Tem “pancadaria”, olho inchado, sangue explodindo, treinos intensos, romance (prestem atenção em Tessa Thompson, guria muito talentosa!), elementos que se complementam sem transformar o longa em um quiprocó enjoativo e previsível. São duas horas de filme que não se arrastam. Embora tenha a violência da atividade como cenário, sabe ser sensível ao discutir as questões dos limites do próprio corpo e os efeitos físicos da passagem dos anos – Balboa faz piada do fato de estar velho até mesmo quando é confrontado por uma enfermidade.

Em um mundo ideal franquias seguiriam deixando suas marcas no cinema assim: sem estragar um legado, deixando apenas uma sensação boa de nostalgia. Digo que blockbuster bom é aquele que se sustenta, e Creed sem dúvidas atende à demanda. Aos poucos nos percebemos envolvidos com os treinos de Adonis, cria-se uma ansiedade para acompanhar sua evolução paulatina. Mesmo conhecendo de antemão as respostas positivas, nada aqui é oferecido de mão beijada. Todos os personagens possuem seus embates diários e talvez seja isso que os torne tão humanos, “gente como a gente”. Coogler foi esperto na construção destas cenas – ele sabe como atrair a atenção de um público indiferente ao tema. Insere elementos da série Rocky, ótimos para agradar os nostálgicos mas sem interferir na experiência e quem nunca viu um filme sequer da franquia.

Nada que brota do dia pra noite, mas uma cumplicidade crescente – Adonis e Balboa se apoiam em suas inseguranças e aprendem a combatê-las juntos. E tudo acontece com fluidez, a ponto de tornar o apoio de Balboa na luta final legítimo, típico de um amigo de longa data que acompanha Adonis desde criancinha. Para uma pessoa alienada ao tema, fui surpreendida. Nem esperava uma mensagem tão bonita de amizade no final.

Por isso digo: never say never para qualquer filme de um gênero que não te pareça interessante, pois ele pode te surpreender para o bem. Não afirmo nem nego que algumas lágrimas rolaram na sequência final…

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.