Cotidiano


Aprendi recentemente que, ao contrário do que o senso comum faz parecer, rotina e cotidiano não são a mesma coisa. Perde-se um sinônimo, o que sempre é uma coisa triste para nós, jornalistas, mas ganha-se uma anedota mais ou menos interessante para contar, o que sempre é uma coisa boa para nós, gente que gosta de falar bobagens por aí – coincidentemente, na maior parte das vezes, jornalistas.

De acordo com meu professor, a rotina é algo que vem de fora, que é imposta do externo para o indivíduo. Já o cotidiano começa no indivíduo e parte para o externo, é algo que a gente cultiva. Percebem a diferença? Um é imposto e o outro é cultivado. Um é erva-daninha, o outro é aquela roseira que a gente rega com carinho todos os dias. Ambos dizem respeito a atividades sistemáticas, hábitos, coisas que se repetem. Da rotina a gente reclama, do cotidiano a gente sente saudades.

Essa distinção foi importante pra mim pois finalmente explicou algo que até então só fazia sentido na minha cabeça. Como estou acostumada a conviver com ideias que só fazem sentido na minha cabeça, foi um alívio descobrir que existia uma definição para minha relação ambígua com essas coisas da vida. Sempre que tentava me posicionar sobre o tema era confundida pela minha própria contradição. Amo rotina, mas não suporto dias iguais? Detesto rotina, mas sinto um estranho conforto na sua presença? Amo rotina, mas odeio repetir as mesmas atividades? Detesto rotina, mas, quando viajo, preciso comer arroz-feijão-e-bife pra me sentir um pouquinho em casa?

Dá pra amar e odiar rotina ao mesmo tempo?

Dá sim, caros leitores. A maravilha dos cursos de humanas é que ali você descobre que as coisas nunca são exatamente do jeito que são, que sempre existe uma enorme zona cinza onde você antes acreditava que havia certeza, e aquilo que você pensava ser o lado da rotina que te agradava, é, na verdade, o cotidiano.

Veja bem, eu não suporto a ideia de fazer as mesmas coisas todos os dias, e levo um susto ruim quando percebo que estou vivendo no automático. Não gosto de dias que eu já sei como vão terminar antes de começarem, me entedio com facilidade com essa coreografia monótona da vida. Me irrito quando me fazem as mesmas perguntas todos os dias, detesto que o garçom saiba o que eu vou beber antes de eu pedir. Odeio constatar que nas últimas semanas tomei o mesmo suco de morango com laranja – com gelo e sem açúcar, por favor – na hora do almoço. Aí peço um de limão, só para pirraçar – com açúcar, viu? Obrigada.

No entanto, certos hábitos são um afago na alma. O sorriso teimoso do meu amigo cobrador de ônibus, e como ele sempre pergunta “é seu ponto aqui, mocinha?”, mesmo que eu desça naquele ponto todos os dias.  Eu gosto de todos os dias ler um pouco antes de dormir, mesmo sabendo que vou dormir antes de virar a segunda página. Gosto de sentar na sala de TV, com o prato na mão, e almoçar assistindo Friends quando estou sozinha. Nunca é qualquer outra série mais nova que eu esteja assistindo, na hora de almoçar é sempre Friends. Adoro estar em casa cedo para passear com meu cachorro na hora oficial dos cachorros aqui da rua. A gente dá uma volta no quarteirão e encontra vários amigos quadrúpedes, e eu já conheço todos pelo nome, mas nunca consigo guardar a cara dos donos. Sinto falta das longas aulas de quarta-feira na rádio universitária, principalmente da hora em que ela acabava e eu e meus amigos íamos na feira comer pastel e tapioca. Toda santa quarta-feira. Às segundas corto caminho pelo shopping e paquero o barman do restaurante caro, sábado é dia de ver filme, e a quinta é sempre mais sem graça quando não tenho tempo de pintar minhas unhas. Gosto de, nas sextas-feiras, ir na mesma pizzaria, sentar na mesma mesa e pedir a mesma pizza. Metade calabresa e metade margherita, dois pedaços de cada pra cada um. Às quartas usamos rosa.

Ser sacudido às seis horas da manhã é rotina, um beijo com boca de café é cotidiano.

Talvez essa distinção não seja tão relevante assim no dia-a-dia. O mundo real é mais simples do que nos fazem acreditar os cursos de humanas: quando o calo aperta, a gente odeia, não suporto rotina; quando a janta é boa, que alegria viver, os pequenos prazeres cotidianos. Ninguém vai te corrigir se você usar os dois como sinônimos, mas a discussão serve pelo menos para sair da rotina de conversar sobre o tempo quando falta assunto numa mesa de bar.

– Me vê mais um suco de morango com laranja? Com gelo e sem açúcar, por favor.

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Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida - e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.