“A Coroa”, Kiera Cass


Texto: Analu Bussular

Difícil a tarefa de resenhar o último livro de uma série. Praticamente impossível fazer isso sem dar nenhum spoiler, principalmente no caso da série A Seleção, onde os 2 últimos livros se passam na geração seguinte aos 3 primeiros. Recomendo então, desde já, aos possíveis navegantes, que se tiverem interesse na série, se importarem bastante com spoilers e ainda não terem lido os três primeiros que não continuem lendo esse texto, tá bem? Então tá bem.

Se você caiu aqui de paraquedas e quer entender do que estou falando, vou contextualizar os livros. A Seleção é uma série distópicas com 5 livros em sequência e mais alguns spin offs publicados com alguns outros contos, um livro interativo e uma passagem da história narrada por outro personagem. Não li os livros extras, então vou falar apenas dos 5 principais.

Depois da terceira guerra mundial, os Estados Unidos viraram o reino de Iléa, que é divido em castas numéricas, sendo a primeira representada pela família real e a última sendo a escória da sociedade. Essas castas impõem de que forma a pessoa vai ser vista na sociedade e também que tipo de profissão ela pode ter. Uma mulher consegue subir de casta se se casar com um homem de casta superior. Um homem nunca pode subir de casta: se uma mulher de casta superior casa com um homem de casta inferior, ela é que perde sua posição.

A história começa quando Maxon, o príncipe, precisa se casar. Como é que os príncipes se casam? Ou com alguma princesa de outro reino à qual foram destinados, ou através da SELEÇÃO, que é um super evento, amplamente televisionado, no qual meninas de todas as castas podem se inscrever. 35 são sorteadas/escolhidas e então são enviadas ao castelo para que o príncipe escolha entre elas. Ele tem todo o tempo que quiser para escolher e vai eliminando as meninas a medida que tem certeza que não quer ficar com elas. É tipo um Big Brother que vai terminar em casamento real. Um big brother onde as meninas são bibelôs numa estante à disposição do príncipe. Pode parecer terrível (e é), mas a abordagem de Kiera foi bastante interessante. Ficou claro que tudo era uma distopia e que tudo naquela sociedade era feito de forma deturpada mesmo, não era pra gente achar legal. No meio das confusões e disputas entre as garotas (ah essa mania de que mulher é rival), vimos nascer também amizades femininas importantes, carinho, amor e lutas políticas, claro.

Acontece uma revolução, o príncipe e derruba a divisão por castas e se casa com a mulher escolhida. Anos se passam, chegamos então aos últimos 2 livros da série e nos encontramos na geração seguinte: é a filha mais velha do príncipe Maxon, Eadlyn, que será a futura rainha e precisa se casar para chamar a atenção e abafar escândalos sociais que continuam ocorrendo.

A dissolução das castas não resolveu muita coisa: não existe mais na prática, mas não é num piscar de olhos que se derrubam as “teorias”. As posições sociais ficaram intrínsecas na sociedade e as pessoas que pertenciam às castas inferiores continuam se sentindo inferiorizadas, continuam tendo menos oportunidades, enfim, as pessoas não estão felizes e como todo bom governo, a família real fica desesperada com as tretas e tenta chamar atenção pra algo bonitinho. VAMOS CASAR A PRINCESA.

Começamos com um ponto positivo? Começamos! Além de derrubar as castas, o novo rei (e sua fiel escudeira, a rainha) decidem acabar com o machismo monárquico também. Mesmo sendo pais de 3 meninos, é Eadlyn, a primogênita, que vai assumir o trono, mesmo sendo mulher – e com essa nova ideia de casamento, também acontecerá, pela primeira vez na história, uma seleção ao inverso: são os jovens meninos que se inscreverão e serão sorteados/escolhidos para adentrarem o palácio para que Eadlyn encontre, entre eles, seu “grande amor”.

Gosto que Eadlyn é rebelde, não gosta dessa ideia de forma nenhuma e nem romantiza a questão: ela não queria ser forçada a encontrar um marido, acha difícil as chances de isso acontecer se colocarem 35 aleatórios na sua vida e não gosta nada dessa palhaçada. Eadlyn é jovem. Ela só quer viver sua vida. Ela só quer ser uma pessoa normal. Ninguém perguntou pra ela se ela queria ser rainha e ela reconhece seus privilégios, mas acha que as desvantagens ficam pesadas demais de quando em quando. Ela sabe que precisa ter mais responsabilidades que outras meninas da sua idade. Ela não quer seleção, ela não quer casar, mas ela sabe que precisa ajudar a imagem da família real perante o povo, ela sabe que precisa fazer isso, então ela aceita.

Em A Coroa nós acompanhamos a segunda parte dos desdobramentos, onde alguns dos meninos já foram eliminados e Eadlyn continua cheia de questionamentos e sendo praticamente obrigada a descartar sua juventude e todas as possibilidades que uma juventude deveria oferecer para lidar com a “vida real” (nesse caso, real ao quadrado). Sua mãe infartou e está internada, seu pai pede licença para ficar cuidando dela e Eadlyn se vê, de repente, no trono, precisando escolher um marido E comandar um reinado.

A Coroa é isso. A Coroa é a história de uma juventude que não acontece do jeito que deveria. A Coroa dá um aperto no coração quando eu tenho que lidar com ideia de uma menina de 16 anos pensando em tomar decisões de acordo com o que ela “deve” fazer, e não com o que ela “quer” fazer. Uma menina que sente que não pode deixar o seu coração mandar. Eu sou uma pessoa que deixa o coração mandar – e olha que eu já passei e muito dos 16. Pra mim é simplesmente injusto demais que uma jovem não possa fazer isso. Minha vontade, durante a leitura toda, era de que Eadlyn conseguisse ter força o suficiente para ouvir seus próprios sonhos e desejos. Se ela conseguiu fazer isso? Bem, AÍ já é spoiler demais. Boa leitura pra vocês!

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.