Cor de fogo


Texto: Odhara C.

O cabelo dela tinha cor de fogo. Cor de fogo de verdade, de fogo que a gente vê na fogueira. “Ruivo”, foi o que a minha irmã me disse quando eu perguntei. Eu nunca tinha visto ninguém com o cabelo assim, tão laranja, tão quente. Era tão quente quanto os olhos. Eles eram grandes, tinham cor de chocolate. A minha vontade era tomar aqueles olhos de canudinho. Natália era toda cabelos e olhos. Eu ainda os vejo nos meus sonhos mais perturbados, quando toda a minha infância se mistura e os monstros voltam a se esconder embaixo da cama. Nessas noites, eu acordo ensopada de suor e, quando me olho no espelho, consigo enxergar a menina de bochechas redondas que eu era.

Eu era pequena demais e só estava feliz porque finalmente ia aprender a escrever. Corria entre as pernas das mães que ainda acreditavam na mística do primeiro dia de aula, brincando com os amiguinhos que eu não vira durante as férias inteiras. Natália era a única criança nova no pátio, meio escondida por trás da mãe, com um vestido florido que eu nunca me imaginaria usando. Parei na frente dela, meio surpresa pela novidade. Fazia muito tempo que as coisas eram iguais no jardim de infância. Nós não estávamos acostumados a pessoas novas. Eu a chamei para brincar. Ela se recusou e eu me afastei, confusa. Mais do que não acostumada a novidades, eu não estava acostumada a negativas.

Meus joelhos viviam ralados, meus cabelos cor de palha estavam sempre amarrados no alto da cabeça. Eu corria, batia nos meninos, gritava no parquinho. Acho que antes de Natália, nenhuma menina da minha escola tinha usado um vestido em dia de aula. Nós não nos comportávamos da forma que as nossas mães queriam. As nossas roupas viviam sujas e as nossas pernas, roxas. Nós éramos todas iguais, mesmo que Mirela fosse mais chorona e Aline tivesse o hábito de roer unhas. Nós vivíamos uma infância elétrica e agitada, de vento no rosto e cair no chão.

Natália brincava de bonecas sentada em um canto limpo do pátio. Era pra ela que nós corríamos quando estávamos cansadas ou doentes. Ela falava baixo e tinha um riso límpido; nada das gargalhadas agudas que tomavam conta da minha garganta. Ela tinha alguma coisa que eu achava que não era permitido para meninas da nossa idade. Uma aura que só garotas mais velhas e que estavam nas capas das revistas podiam ter.

Era um dia chuvoso. Nós não tínhamos energia para nada e apenas gememos coletivamente quando a professora avisou que nos reuniria em duplas para uma atividade. Olhei automaticamente para Bianca, minha parceira de sempre.

“Acho que dessa vez não, Sofia”, a professora interferiu.  “Natália, vem aqui. Hoje vocês vão trabalhar juntas”.

Ela não era tímida. Nós conversamos e rimos, mas eu percebia que algo me escapava. Não era natural — o contato não se estabelecia do jeito fluido com que eu estava acostumada. Se eu soubesse dessa palavra naquela época, teria descrito Natália como uma pessoa inescrutável. Foram apenas 40 minutos de uma atividade boba, envolvia cortar e colar revistas, mas não consigo me lembrar qual era o objetivo daquilo.

Aqueles quarenta minutos, contudo, fizeram com que o mundo que eu conhecia derretesse na minha frente. Enquanto a percepção da existência dessa outra pessoa se tornava cada vez mais definida pra mim. Ela estava lá, cabelos cor de fogo e olhos cor de chocolate. Viva. Respirando. Concreta. E inalcançável. Tudo sempre estivera ao alcance da minha mão. Eu podia tocar, ver, não havia camadas, segredos. Nenhum mistério a ser esclarecido. Todas as outras pessoas eram só uma extensão de mim. Minha mãe era a minha mãe, meu pai era meu pai, minha irmã era minha irmã, minha melhor amiga era minha melhor amiga. Tudo girava em torno de mim, da minha posse.

Mas Natália era um indíviduo. Uma outra pessoa. Alguém que eu nunca conseguiria alcançar de verdade. Alguém que eu nunca poderia ser.

É claro que eu não consegui formular nada disso naquele dia. Eu só tive aquela sensação estranha de quando o próximo degrau da escada não está onde devia e nós quase caímos. Era uma porta fechada. E, além de não estar acostumada a novidades e a negativas, o que eu realmente não conseguia entender eram portas fechadas.

Hoje, alguns psicanalistas depois, eu sei que foi ali que a minha infância acabou. Eu tinha seis anos e continuaria brincando de boneca pelos próximos seis. Mas descobrir o universo infindável da humanidade destruiu a minha inocência.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco. Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).