Como construir uma identidade num contexto de violência?


Na minha estreia na Polén, nesse finzinho de agosto, venho tratar da temática da identidade sob uma perspectiva social, fruto de algumas observações e pesquisas (ainda não finalizadas) que tenho feito.

O que constrói a identidade de um indivíduo senão as relações que o mesmo estabelece com o meio? O contato com o outro, mantido desde o convívio com a família até as experiências no espaço escolar, é a matéria-prima para a consolidação do que o jovem é e do adulto que ele será. Eu, Paulo, fui moldado desde a minha infância pela presença da minha mãe e da minha avó no meu cotidiano e, com o passar dos anos, também pelos outros corpos que ocupavam o espaço escolar comigo. Construir sua identidade é ingerir o que está ao seu redor, digerir e produzir sua própria energia.

Ao mesmo tempo, a forma que o indivíduo se apresenta para o espaço, isto é, a posição que ele toma no meio social, é respondida com uma reação, seja ela positiva ou negativa. Ser aceito ou rejeitado é uma questão de se adequar ou não à norma. E, como se repete quase exaustivamente na internet, a norma é masculina, cisgênero, heterossexual, branca.

Afirmar que um indivíduo não conformado à norma terá uma construção de identidade diferenciada daquele que é bem aceito pelo meio chega a ser óbvio, porém, eu não tinha me dado conta da dimensão disso tudo até ler um artigo e me deparar com a seguinte passagem:

“Podemos perceber, então, o quanto o contexto violento contribui para a construção de uma identidade deteriorada, marcando de maneira decisiva o jovem homossexual e suas escolhas individuais (seus projetos).”

“A Rua e o Medo: Algumas Considerações sobre a Violência Sofrida por Jovens Homossexuais em Espaços Públicos”

O artigo, a propósito, apresenta dados de uma pesquisa sobre a violência sofrida por jovens homossexuais e, apesar de bastante interessante, as informações levantadas não foram tão inovadoras para mim – tanto por já ter lido outros materiais sobre o assunto quanto pela minha própria experiência. Demonstrar afeto em público e não corresponder às expectativas associadas ao seu “sexo biológico”, além da exposição indesejada causada por fofocas, são alguns dos perigos impostos sobre pessoas LGBT que o texto menciona. Entretanto, destaco a reflexão reproduzida acima porque ela é impactante.

Você já parou para perceber como a violência afeta a vida de alguém, principalmente se estamos falando de um jovem que está em um processo de construção do “eu”? A resposta agressiva do meio às características de um indivíduo gera um desequilíbrio no processo de digestão do outro para construção da identidade. Assim, o indivíduo é violentado e ainda gera um processo de violência contra si, seja através de isolamento social, baixa autoestima, vulnerabilidade, desempenho escolar insuficiente…

E quando falo de violência, não me refiro apenas à violência física, até porque há coisas que machucam ainda mais que socos, facadas e lâmpadas na cara. Destaco a violência verbal, moral e, principalmente, a simbólica. A heteronormatividade e a heterossexualidade compulsória, ideias completamente disseminadas pela mídia, são formas de reprimir – e, portanto, deteriorar a identidade – indivíduos desde o princípio da juventude.

Vale ressaltar que usei os jovens LGBT como referência, mas essa ideia pode ser aplicada a qualquer minoria social. Mulheres têm seu caminho previamente traçado pela norma. Pessoas negras têm seu caminho previamente traçado pela norma. Quando se está às margens da sociedade não há como viver livremente para construir sua identidade.

Aliás, não é que não haja como viver, o que existe é uma complicação nesse processo. Primeiro, por sermos mais vulneráveis à violência. Segundo, porque é exigido de você ainda mais autoconfiança e segurança. Exemplifico isso com uma das etapas da minha pesquisa de Iniciação Científica em Geografia, que envolveu aplicar um questionário sobre diversidade sexual com outros estudantes de Ensino Médio no meu colégio. Durante o processo de divulgação, em que eu e uma amiga (também homossexual) precisávamos passar por salas de aula e falar diante de desconhecidos, percebi que o fato de nos expormos exigia que fôssemos fortes sobre a nossa identidade. Afinal, estávamos dando “indícios” de nossa sexualidade e qualquer sinal de fraqueza poderia ser uma abertura a agressões.

Durante a divulgação, felizmente, a violência apareceu somente através de risos abafados, embora em algumas respostas ao questionário ela tenha sido mais evidente. “Sou contra o homossexualismo” e “Eu é que sou o agressor [de pessoas LGBT]” foram duas das frases que fizeram questão de escrever. Em seis anos no mesmo colégio, posso ter visto pouquíssimos casos de violência, mas mesmo esse pequeno incidente mostra que, de alguma forma, ela está lá.

O contexto violento está posto, a questão é como lidar com ele. E mais: como fazer com que essa violência diminua gradualmente, até chegar ao fim?

Sinceramente, eu não sei.

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Sobre Paulo V. Santana

Paulo tem 19 anos, cursa Letras na USP e… o resto ele ainda está descobrindo. Enquanto isso, ele canta High School Musical nos karaokês da vida, lê uns livros, reclama da vida na sua newsletter e perde horas e mais horas assistindo coisas no youtube. No Twitter: @paulovsantana

  • Telmo Kiguel

    Este belo texto merece ser ampliado e debatido com:
    “Religião e laicidade: discriminação e violência.”