Com palmeiras, com trincheiras: 8 livros latinos sobre crescer


Texto: Lara Matos

Nós, latinos, somos meio solitários dentro de nós mesmos porque nossas realidades superam as ficções possíveis. Tínhamos Eldorados e Édens em nosso território, e de repente um apocalipse (e então se seguiram muitos outros) moldaram nossa forma de encarar a vida, e não é que usemos a peculiaridade de nossas terras e a crença para embelezar nossa vida: nós precisamos delas para respirar.

Não há anjos, nem tradições ou ordens que se fazem aqui por muito tempo porque o que nos fez transformar a realidade em que vivemos foi a estranheza da nossa existência. Talvez por isso, crescer e tornar-se adulto por aqui seja algo tão peculiar e um exercício de força e resistência, que inspirou romances de formação únicos e muito emocionantes (bem ao modo latino, né). Aqui, listo os meus favoritos:

[PERU] Travessuras da Menina Má, Mario Vargas Llosa: um apanhado de acontecimentos do século XX serve de pano de fundo para este romance que acompanha o desenvolvimento de  Ricardo Somocurcio perseguindo sua Lily de muitos nomes com ambições de ser uma celebridade, desde a infância em Lima até os muitos reencontros durante a vida de ambos até na vida comum em uma sonhada água-furtada em Paris de que nosso protagonista tanto fala ao decorrer do romance, e o desfecho recheado de desilusões e verdades não só sobre ele mesmo, mas também sobre a história do Peru no século XX.

água-furtada tão sonhada por Ricardo

[CHILE] Eva Luna, Isabel Allende: conta as histórias paralelas de Eva Luna, a personagem título, e Rolf Carlé, destinos que se cruzam ao final com uma pessoa em comum, o malando Naranjo, que em suas andanças conhece nossos dois futuros amantes. Descreve bem o amálgama de tradições, crenças e pessoas de todos os lugares que somos, e como isto nos faz únicos e mágicos, e como as histórias que Eva conta aumentadas das radionovelas que ouve com fanatismo, dão muitas vezes a síntese do que é crescer sendo latino americano, inventando realidades, quase fazendo mágica nas atmosferas turbulentas.

 

[MÉXICO] Se Vivêssemos em um Lugar Normal, Juan Pablo Villalobos: esse livro é muito legal porque demonstra o desenvolvimento de um personagem adolescente no México do final dos anos 80, que vivia uma situação de crise econômica e hiperinflação muito semelhante aos anos Sarney brasileiros, com direito à mesma corrida aos supermercados que culmina com a perda de dois irmãos seus no estabelecimento, chamados os “gêmeos”, que até o final do livro não são encontrados. Com muito humor e olhar afiado sobre a condição da classe média empobrecida no final do século passado, é um livro dolorosamente engraçado.

 

[MÉXICO] Reze Pelas Mulheres Roubadas, Jennifer Clement: a dura realidade de Ladydi, menina em um vilarejo no sul do México em que sequestram moças para vendê-las como escravas em bordéis, é esmiuçada com muito lirismo na voz da própria protagonista. Ladydi supera os temores, cresce e encontra acolhida, piedade e amor em lugares inesperados, como ao ser poupada por um escorpião com quem dividia um esconderijo de ser picada ou nas colegas de prisão. Apesar do México, da polícia e de traficantes em seu encalço, e apesar de toda violência e traumas a que é exposta, Ladydi sobrevive.

 

[REPÚBLICA DOMINICANA] A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, Junot Díaz: O tanto que eu falo sobre esse livro traduz o quando ele é bom. Está facinho nas melhores leituras da minha vida mesmo. Aqui, a gente acompanha o amadurecimento de muitos personagens: do nosso Oscar Wao, de Lola, (irmã de Oscar), da mãe deles, Beli e do narrador, Yunior, e suas trajetórias ligadas à história da República Dominicana, permeadas de muito sofrimento e violência, mas também de muita fé e amor.

Malecón de Puerto Plata, Baní, um dos cenários do livro

 

[BRASIL] O Grande Mentecapto, Fernando Sabino: Apesar de a Academia meio desprezar Fernando Sabino, é um dos meus autores preferidos, muito por conta deste livro, que narra a vida de Geraldo Viramundo em Minas Gerais a partir de uma aposta com desfecho trágico: ele e seus amigos tentariam fazer um trem parar na cidadezinha de Rio Acima. Engraçado, divertido e leve, esse livro tem uma brasilidade deliciosa.

[COLÔMBIA] O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel García Márquez: Essa trajetória amorosa de Juvenal Urbino e Fermina Daza tem cheiro de amêndoas amargas e é considerada por mim um romance de formação por tratar da juventude dos protagonistas e de seu amadurecimento, principalmente em relação à vida amorosa. O bônus dessa história linda é a cidade de Cartagena de las Índias, no litoral colombiano, que tem paisagens e cores de tirar o fôlego. As descrições de Gabo sobre Juvenal nas ruas, portos e praças (palcos-personagens de sua amor por Fermina) da cidade velha me fizeram sonhar.

A casa de Fermina é mais ou menos assim

[BRASIL] Ciranda de Pedra, Lygia Fagundes Telles: Virgínia narra sua história em fragmentos, e a relação com sua família, complicada e cheia de segredos, é esmiuçada com muita sensibilidade, bem como o desenvolvimento da personagem e suas descobertas de que o mundo de que tanto quisera fazer parte durante a infância e início da adolescência agora é visto como cruel, sem sentido e até mesmo repulsivo.

o caramanchão que tanto impressiona Virginia

 

No conto o Olho Silva, Roberto Bolaño, chileno radicado no México, latiníssimo diz que não se pode escapar da violência da América Latina, principalmente os contemporâneos e supervenientes das eras de ditaduras e tudo que isso causou aos nossos países. É verdade que violência e adversidades de toda sorte nos acossam desde sempre, mas nós temos nossas cores, nossas histórias, uma fé interminável: eis nossa mágica todo-poderosa.

 

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de "realidade": estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.

  • Priscila

    Eu até salivei de antecipação ao ler as descrições acima, sou apaixonada pela Allende mas Eva Luna eu ainda não li. Diante do que você expôs desses títulos latinos não tenho outra opção a não ser ler todos. E já antevejo muita emoção. Obrigada Lara <3