‘Clarissa’, Erico Verissimo


Antes de Erico Verissimo escrever a trilogia O Tempo e o Vento, essa meio que mistura de saga familiar e épico que é um dos melhores representantes da literatura gaúcha, ele publicou todo um rol de livros mais, digamos, urbanos, e que representam projetos menores. Clarissa foi o primeiro – e foi por onde decidi começar. Começar em partes, quer dizer – com metade da trilogia já lida anteriormente, iniciei a leitura de Clarissa com expectativas consideravelmente altas, porque O Continente é maravilhoso (inclusive recomendo). Talvez por isso tenha acabado sentindo uma pontinha de decepção – onde estavam as muitas personagens fortes e bem delineadas, onde estava a ótima história, que o autor sabe contar tão bem, de forma que nos deixa completamente presos ao livro?

Os dois textos que antecedem o romance na minha edição (são dois prefácios, um do próprio Erico anos depois da publicação e outro de um estudioso de literatura) de certa forma preparam o leitor para a possível decepção. É um aviso: leia-o pelo que ele é. O autor conta que Clarissa foi escrito em alguns fins de semana, único tempo livre que tinha naquela época, aos vinte e alguns anos. Em retrospecto, ele mesmo considerava o romance um pouco bobo, mas ele gostava muito do retrato (para usar as palavras do primeiro prefácio) que pintou de Clarissa (sem dúvida uma personagem querida a ele – Clarissa também é o nome de sua filha), e via algo de real valor ali. E ele tem razão.

Conhecemos as angústias, anseios, desejos e sonhos de Clarissa. Ela tem treze (quase quatorze) anos e vive longe dos pais pela primeira vez em uma pensão, em Porto Alegre. Clarissa anseia pelo aniversário, porque quer crescer e usar salto alto e ser admirada ao andar na rua. Ela quer ser moça. Mas também anseia por brincar com as crianças da casa vizinha, sempre longe de seu alcance. É um despertar para a adolescência bem bonitinho e pueril, adorável e ao mesmo tempo às vezes meio dolorido. Bacana de acompanhar mesmo para quem já está bem distante daquela época. Amaro, o único outro personagem realmente bem delineado do livro, funcionário do banco (mas músico nas horas vagas), retraído e melancólico, é quem acompanha de fora o florescer da menina – diversos capítulos são na visão dele, que admira a menina e sua alegria enquanto relembra a própria infância cheia de anseios. Amaro talvez pudesse ser aquela pessoa que diz para você não querer crescer rápido demais – e, por mais irritante que isso seja quando se é adolescente, não deixa de ser justificado.

O primeiro prefácio do livro diz que Clarissa se encaixa no gênero retrato, o que talvez tenha sido o mais difícil para eu aceitar e seguir em frente. Porque Clarissa tinha tudo para ser um coming of age, tipo de história da qual eu sempre gostei e sigo gostando muito, talvez por ser tão universal. Clarissa, a personagem, percebe agudamente que está crescendo, começa a perceber melhor as pessoas ao seu redor e o mundo vai perdendo a inocência diante de seus olhos. Longe dos pais e meio solitária por viver em uma cidade nova, ela ocupa o ambiente perfeito para que a história de coming of age acontecesse. Mas isso não acontece. O romance funciona mais como um recorte, sobre quem é Clarissa, um ano na vida dela e o que acontecia ao seu redor – o que, reconheço, provavelmente era exatamente o que o autor queria fazer.

Para variar, minha parte favorita foi o texto em si – o texto e o estabelecimento do ambiente da pensão. Tenho um amor muito grande por autores que estabelecem a atmosfera de suas histórias tão bem que você consegue fechar os olhos e visualizar, sentir. Em seu prefácio, Erico comenta sobre um dos defeitos que enxerga nessa obra – o que ele chama de excesso de “’boniteza’, de joliesse, de prettiness”, o enfoque excessivo de “instantes pictóricos e poéticos”. Eu de fato reparei nisso ao longo da leitura. Mas eu, porque sou eu, só consegui pensar: “Erico (íntima), isso é o oposto de um problema”. Para mim, o texto é muito bonito – de um jeito bom.

Clarissa é um belo retrato de uma personagem adolescente bem construída, escrito numa linguagem elegante e bonita, e é uma leitura bastante agradável, ainda que contenha diversos momentos de melancolia. Ainda assim, eu diria a alguém que quisesse começar a conhecer a obra do Erico Verissimo para não começar do começo, mas do topo. Leiam O Tempo e o Vento – o que tem de melhor em Clarissa também existe lá, só que num nível totalmente excelente. O que também nos lembra: talento existe, e talento é importante. Mas trabalhar em cima dele e desenvolvê-lo é tão importante quanto.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.