Clarice é um perigo


Texto: Sabrina Coutinho

Um dia desses, em um fim de tarde de sábado, naquela correria típica de fim de semestre, sentei na minha cama para fazer um trabalho da faculdade. Na cama porque, afinal, era sábado e eu merecia esse pequeno luxo. No início era eu, meu laptop, o livro A descoberta do mundo e uma taça de vinho. Li uma ou duas crônicas até perceber que seria impossível continuar sem um caderno e alguns post-its, mesmo com o laptop, é sempre mais instintivo fazer anotações e marcar algum trecho importante – imagina quantos eu já não tinha perdido por confiar na minha memória! Peguei os novos materiais e prossegui a leitura. Dalí a pouco, após um gole de vinho, senti a garganta pegar: é lógico que eu precisava de um copo d’água. Peguei a água. Sentei novamente e, quando olhei a minha volta, quase não tinha espaço para mim na cama. Estava rodeada de livros, cadernos, canetas e copos: todo o necessário para fazer aquele trabalho funcionar. Mas não funcionava.

Me lembrei da época em que tinha uns oito anos. Tinha um dia da semana em que podíamos levar brinquedos, porque passávamos a tarde na escola e tínhamos algum tempo livre. Um dia tive a ideia de levar uma mochila com todas as ferramentas necessárias para uma grande aventura: uma escavação, uma investigação de um crime, uma busca por um tesouro. Passei horas pensando em tudo que levaria: bússola, binóculo, mapas (nem sei de onde)… No dia seguinte lá fui eu com minha mala, quem olhasse pensaria que eu estava fugindo de casa. Quando bateu o sinal da hora do recreio eu e meus amigos pegamos a mochila e fomos para a quadra planejar nossa aventura, pensávamos em todas as possibilidades, qual seria o tesouro escondido ou o caso a ser resolvido. Não vimos o tempo passar e logo o sinal já estava tocando de novo. Nem abrimos a mochila. Acho que foi melhor assim, nos divertimos do mesmo jeito criando todas aquelas hipóteses e nem precisamos arrumar a bagunça depois.

Sorri ao lembrar dessa história, mas mandei os pensamentos para longe. Agora estava determinada a ler pelo menos um ano de crônicas de jornal genialmente escritas por Clarice, que me interessavam muito! De fato, os relatos da autora foram me envolvendo cada vez mais. As inseguranças dela eram as minhas, os questionamentos eram os mesmos e quando ela falava sobre o tédio, que às vezes impera nos fins de semana, eu suspirava ao perceber que esse sentimento também era meu. Senti uma angústia e fechei um pouco o livro, pensando e pensando. Eu estava preparada, tinha todas as ferramentas para escrever o texto naquela hora. Mas não saiu uma linha. E acho que foi melhor assim.

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Sobre Sabrina Coutinho

Sabrina Coutinho tem 23 anos, é de São Paulo e estuda Editoração na ECA USP. Trabalha com educação no Quero na Escola e no tempo ~livre~ se mete em projetos culturais. É feminista, virginiana e sommelier de hambúrguer e cappuccino.