Cidade viva


Texto: Paloma Engelke

Aos treze anos de idade eu tive uma fase Machado de Assis. Essa é uma confissão um pouco pedante a fazer, com certeza. Mas, apesar de eu admitir que eu era realmente bem pedante naquela época, não é para me gabar que eu conto isso agora, logo na abertura desse texto. Eu me apeguei com tanta força à obra de Machadinho por um motivo muito específico: ele era carioca. Eu sou carioca.

Nasci e fui criada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Dos 5 aos 10 anos morei na baixada santista (São Paulo), mas o Rio sempre foi e continua sendo minha casa, minha identidade. Mesmo que naquela época, aos 13 anos, eu estivesse longe de estar familiarizada com o eixo centro-baixa Zona Sul em que se passam os livros do Machado (e que compunham toda a cidade do Rio de Janeiro na época em que ele viveu), ver aqueles nomes familiares no papel e ter a consciência de que tudo aquilo estava a um ou dois ônibus municipais de distância me dava uma sensação estranha de orgulho. Uma validação, de algum modo.

Ler livros estrangeiros é muito bacana. É o que torna a atividade da leitura de certa forma análoga à viagem, é o que permite que extrapolemos os nossos próprios limites territoriais e conheçamos outros lugares de uma forma muitas vezes mais íntima do que se estivéssemos apenas caminhando pelas suas ruas sem nenhuma contextualização. Por meio dos livros e do trabalho complementar da imaginação do leitor, lugares físicos e imaginários são recriados de forma mais ou menos fiel à realidade, são universos paralelos inteiros e diversos que surgem a partir de mentes solitárias.

Mas existe algo de especialmente mágico em ler um livro que se passa em lugares que você conhece, em que você já esteve. É especialmente mais mágico quando o cenário em que aqueles personagens caminham vivendo suas histórias, também é o mesmo em que você caminha enquanto vive a sua. É essa conjunção de fatores mais ou menos aleatória que faz com que um cenário, deixe de ser um mero um plano de fundo e ocupe um papel central e emocional dentro da trama que se desenrola na vida daquelas pessoas e na vida do próprio leitor.

Quando uma cena de um livro se passa em um lugar no qual você esteve ontem com as amigas, ou onde você costuma passear no fim de semana, ou a alguns passos do seu trabalho, de um minuto para o outro todas as pessoas que passam por você nas ruas passam de ser objetos orgânicos vivendo mecanicamente dia após dia e se tornam protagonistas de suas próprias histórias, com sentimentos e problemas e questões pessoais e únicas. Quando o que era apenas uma rua, um bairro, um prédio, uma praia, são reproduzidos dentro de uma obra ficcional, todos os acontecimentos aparentemente cotidianos que se desenrolam naquele espaço se tornam potencialmente parte de uma história, de uma narrativa maior que é a vida de cada pessoa presente naquele espaço. Que é a nossa vida.

Ler uma história geograficamente próxima a nós é mais do que aumentar as possibilidades de identificação com a história, é abrir uma nova porta para a leitura dos próprios espaços a nossa volta como espaços de história, que influenciam em nossas vidas e exercem o papel de um personagem, um corpo orgânico com um comportamento próprio e dinâmico.

Foi isso que Machado de Assis me deu, lá na adolescência. Foi isso que Cristina Parga me deu, com Qualquer areia é terra firme, esse ano. É isso que eu venho buscando com cada vez mais frequência nos livros que eu leio. E foi essa a motivação da inclusão do item 9 do desafio Ler Além.

Quando eu era adolescente, todas as histórias que eu escrevia se passavam em lugares dos Estados Unidos e da Europa. Lugares onde eu nunca tinha nem pisado. Lugares que eram os cenários da esmagadora maioria da literatura e dos filmes que eu consumia. Hoje eu vejo a importância de ler e escrever histórias passadas no espaço em que eu vivo. A importância de humanizar esses espaços e abrir a porta para que eu e outras pessoas consigamos perceber que tudo o que acontece aqui, nesse espaço, todos os dias em torno de nós, também é história e merece ser contado.

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.