“Cidade em chamas”, Garth Risk Hallberg


cidade em chamas capaCidade em chamas é o primeiro livro de Garth Risk Hallbig, e foi considerado a maior estreia literária dos últimos tempos. De fato, ele é grande e bastante ambicioso. Em um único livro, o autor reuniu vários personagens completamente diferentes um dos outros, intercalando suas histórias pessoais com um acontecimento que os unem de alguma forma. Cidade em chamas é assim: barulhento e dramático, com aquele pequeno toque de familiaridade. A história, ou pelo menos alguma parte dela, é aquela que poderia ser minha ou sua.

Falar desse livro é complicado, porque não é possível resumir todas as 1043 páginas em poucas palavras. E se isso fosse ser feito, teria que ser assim: uma garota é atacada na noite de ano novo (de 1976) no Central Park em Nova Iorque. O que acontece antes disso é a apresentação das personagens principais e suas histórias. O que acontece depois são os personagens levando a sua vida em frente, alguns tentando entender o que aconteceu, outros sem saber que de alguma forma, eles estão ligados àquela garota.

O livro é intercalado entre o passado e o presente , mas uma parte é totalmente dedicado ao passado, com cenas de flashback, mostrando a vida dos personagens na adolescência, o que adiciona um pouco de profundidade à história e também aos motivos que os levaram a agir da forma que agiram. Seja porque a família era extremamente rica e tradicional da cidade, querendo que os filhos seguissem o mesmo caminho dos pais; ou o garoto adotado que se viu sendo substituído por filhos biológicos de seus pais e teve que enfrentar a morte prematura do pai; o homem negro e gay que saiu de casa em busca da liberdade de ser quem ele realmente era; o jovem rico, rebelde, punk e gay.

Cidade em chamas mostra o preconceito existente na década de 70, mesmo na moderna e cosmopolita Nova Iorque, de uma forma bem clara. Mercer Goodman, nosso personagem negro e gay, é professor na Wenceslas-Mockingbird School para meninas e precisa esconder a sua orientação sexual do restante dos colegas de trabalho, porque só o fato de ser negro já lhe causaria muitos problemas. Quando conversa com sua mãe no telefone, Mercer diz que mora com o amigo William, e não com o seu namorado William. Mas também, o livro mostra que entre as pessoas mais jovens e revolucionárias, o fato de William ser ex-integrante de uma banda de punk rock e gay, não quer dizer nada. Cada um namora quem quiser. É engraçado quando paramos para pensar e vamos que hoje em dia a situação não é tão diferente, né?

A história é divida em sete livros e entre cada uma delas há o chamado “interlúdio”, uma parte com arquivos, documentos e cartas considerados importantes para o desenvolvimento e entendimento da história. Por exemplo, temos a fanzine de Samantha Cicciaro, uma jovem fotógrafa que se interessa pelo movimento punk que nasce e cresce na cidade e decide criar uma zine para espalhar por aí as boas novas do punk rock e seus seguidores. Todos esses textos do interlúdio são comentados durante a leitura, então esse é um acréscimo que eu achei bastante interessante. Eu realmente amo quando os livros têm esse tipo de coisa porque me sinto muito mais próxima dos personagens e do que eles estão vivendo.

Cidade em chamas é um livro bastante longo, mas não cansativo. Ele prende a atenção do leitor e como seus capítulos (ou a maior parte deles) são bem curtos, a leitura flui bem. Os personagens são extremamente envolventes, alguns mais do que outros. Nessa leitura você vai encontrar de tudo: amor, traição, amizade e perdão. Mas, principalmente, Cidade em chamas é um livro sobre ser jovem, não importa a sua idade. Manter-se jovem é o importante. Aproveitar a vida é ser jovem. E ser jovem é fazer o que você tem vontade, quando você tem vontade, sem se importar com o que os outros vão pensar.

Não se leve tão a sério.

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Sobre Rovena

Rovena é de Vitória, formada em Relações Internacionais e atualmente cursa Letras-Inglês. Gosta muito de ler e ouvir música enquanto escreve. Grifinória, feminista e especialista em tretas do blink-182. Está no twitter (@rovsn).